Nascimento – Por Denise Deschamps
Certas pesquisas me fazem pensar no papel que a ciência quer desempenhar. Alguém acreditou algum dia que eles não sentiam dor? Uma mãe em pleno desenvolvimento de seu vínculo com o bebê deixou de perceber quando ele sentia dor ou abandono? A pergunta que fica é bem mais abrangente que a colocada, penso eu, uma vez que para perceber essa dor pensaríamos já em constituição de uma percepção corporal e a partir disso, pensaríamos também já na constituição de um psiquismo, sem o qual o limiar de dor não faria sentido.
Teorias avançam, muitas questões são colocadas, mas não se consegue delimitar a partir de quando podemos pensar em um sujeito em formação. A psicanálise vai longe nesse questionar, chegando a trazê-lo para antes do nascimento, via imaginário dos pais.
Em plena discussão sobre aborto e pesquisa com células tronco, pesquisadores e grupos religiosos se embatem na pergunta sobre a partir de qual momento começaria a vida como a entendemos, a formação de um ser. Ao se perguntar sobre isso, penso que todo campo psi deveria ser chamado para esse debate, uma vez que pensamos vida como a entendemos, a partir da constituição de um sujeito que sente.
“…Um recém-nascido…É uma coisinha que não vê, que não ouve. Como você quer que seja infeliz?
-’Coisinha’ que não vê, ‘coisinha’ que não ouve…Mais nada impede que a ‘coisinha’ grite bem forte”(Frédérick Leboyer – Nascer Sorrindo)
Mães e pais na hora do nascimento assistem ao espetáculo da vida e do afeto. Criança que grita chegando ao mundo e que olha tão fundo para o olhar da mãe, acalma-se, examina e afastado dessa, volta a chorar. Poucas mães não terão vivenciado esse fenômeno tão comum em salas de parto. Alguns pesquisadores apontam para esse “olhar” como o “start” fundamental para toda organização daquele ser que chega ao mundo, com pulmões em chamas e cansado pela aventura que é sair do “Nirvana” que representa o estado anterior ao nascimento, a chamada vida intra-uterina, onde já adivinhava sons e sensações.
Quem sabe se até alguns rudimentos de emoção?
“O que significam os gritos dos recém-nascidos?
Que têm reflexos normais. Que a máquina está em funcionamento.
Os gritos não falam do sofrimento?
Para gritar como grita, será que o bebê não sente imensa dor?”(Leboyer, F.)
Mas há bebês que pouco se manifestam, olham pouco, choram pouco, deprimem-se. O que haveria de histórico já nessas manifestações? O quanto estaria já marcado pelo não desejo, pelo não lugar afetivo ao qual já teria sido designado? Amar não é algo que se possa impor a qualquer ser humano, sabemos disso e repetimos isso ao longo da vida, reeditando experiências. Pode alguma lei obrigar pais a amarem aquele novo ser que chega ao mundo? E se esse sujeito começa a surgir a partir do desejo dos pais, é justo nascer em um não lugar?
Perguntas que o campo psi pode ajudar a pensar na temática complexa que envolve as práticas abortivas legalizadas. De preferência sem trazer para a discussão questões religiosas ou da moral conservadora.
Nascer é uma grande tarefa, talvez até maior que morrer. Cada um de nós um dia chegou aqui, gritou, chorou, foi acolhido ou não, entendeu o sentir, a falta, o acolhimento, a solidão…gerou e cumpriu expectativas.
Muitos de nós já geramos outra vida, e por instantes nos sentimos deus, com toda criação cabendo quase que na palma de nossas mãos.
“Falar de amor ao recém-nascido!
Isso mesmo! Falar de amor! Não é essa a língua de que toda natureza fala?
Para se fazer entender pelo recém-nascido, é preciso falar a linguagem dos amantes.
De amantes!
É, de amantes.
Os amantes, o que dizem?
Eles não falam, se tocam”
Que o campo psi comece a se pronunciar sobre a vida, que nasça para dizer ao que veio, que implique esses sujeitos em relação a matriz que queremos dar a um mundo que enlouquece a olhos vistos, a um mundo que tenta banir as emoções via suas instituições normativas, que começam ali, naquela sala de parto ou mesmo, muito antes dali.
Reportagem:
http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL611667- 5603,00-BEBES+SENTEM+MAIS+DORES+DO+QUE+SE+PENSAVA+ DIZ+ESTUDO.html
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