O ato de viver como a esperança – Por Denise Deschamps
“…a esperança é, na sua essência, um horizonte que se descortina, um apelo que nos convida a caminhar e a ir sempre adiante pelos caminhos da vida…” (Zeferino Rocha – “A Esperança não é esperar, é caminhar” in Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental Vol X/2007)
Aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, no mês de outubro, uma jornada de psicanálise cujo tema central era “Esperança”, promovida pela Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro(SPCRJ). Tema intrigante se pensarmos em psicanálise e mais ainda se pensarmos na atualidade ou a chamada pós-modernidade. Esperança que lembra sempre o ato de espera, passividade, em uma sociedade que convida à ação imediata, ao prazer instantâneo, à escolha sem perda.
Começa a jornada, e, logo na abertura, somos apresentados a uma nova perspectiva para essa palavra esperança, não mais como espera passiva, mas sim como o próprio ato que faz o caminho. Esperança não é esperar, nem olhar para o horizonte, mas aquilo que faz com que possamos dar cada novo passo em direção ao amanhã. A esperança está no hoje então, não mais no futuro próximo ou longínquo. Se hoje não pudermos vislumbrar o que temos a esperança de construir, então não é esperança, é ilusão. Distinguir uma coisa da outra faz uma enorme diferença no ato da escolha. A esperança nunca será estéril, mas a ilusão sim, esta última se planta em terreno das fantasias que não passarão pelo teste de realidade ou cairão no primeiro obstáculo, desinvestimento inevitável se fará pelo caminho daquilo que não se apóia no mais legítimo desejo que nomearemos então de esperança.
“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”(Oscar Wilde) citado em um dos trabalhos apresentados. Existir sem esperança lança-nos direto na desesperança, no ato inútil, no investimento destituído de libido, cria então o caminho propício àquilo que hoje permeia as relações sociais, naquilo que têm de mais íntimo e que habita o cotidiano, assim como também habita em muito do que fala de ideal de ego, conceito esse muito bem lembrado nesse encontro. Vejamos que ele se diferencia de ego ideal, esse sim aferrado a ilusões sem chão de realidade. Necessário resgatar esse conceito tão importante em psicanálise, e que hoje se faz quase que uma saída última diante do desamparo que vivemos frente a uma realidade sem ideais ou sonhos possíveis. Ideal de ego, tudo aquilo que construímos em nome dessa esperança, que construímos através de outro conceito tão fundamental em psicanálise, o da sublimação.
“Ideologia, eu quero uma para viver” já cantava o poeta Cazuza.
Em outro trabalho que foi apresentado com o tema “O desejo nunca se realiza da mesma forma que a esperança nunca morre”(Maria Helena Mossé e Maria Lúcia Fradinho) encontraremos a seguinte passagem: “Esperança, sentimento primordial, intimamente entrelaçado ao desejo”.
Assim como a tristeza básica existente no ato de vida tem sido varrida das nossas possibilidades, a esperança tem sido uma palavra atacada e reduzida a algo muito menor do que pode trazer contida enquanto potência criativa. Voltamos a dizer, não como espera passiva, mas como motor do desejo que se alimenta nele e o realimenta na execução de passos que mobilizam o ato da vida naquilo que ela tem de mais belo, seus ideais e sua ética, beleza rara que o humano constrói.
Resgatar na própria concepção da psicanálise aquilo que seu fundador a inundou, na crença em laços afetivos e ideais coletivos que, quem sabe, um dia, construirão um mundo melhor e menos desigual ou repressivo no sentido do formulador da insuportável dor.
Ainda leremos no trabalho citado acima: “Para Freud, o fulgor da criação encontra seu ponto de emergência inicial no sexual. À capacidade plástica da pulsão de modificar seu objetivo originário sexual por um outro não-sexual, sem perder por isso o essencial de sua intensidade, ele dá o nome de sublimação”.
No caminho do desejo, muitas vezes devemos evitar o atalho do amortecer a dor de imediato, naquilo que hoje se constitui quase que em uma única possibilidade, o da “geração Prozac”(e tantas outras “poções mágicas”). Outro trabalho apresentado, com o título: “Esperança e desilusão – Uma visão psicanalítica”(Esther Perelberg Kullock) em determinado ponto nos remeterá a uma reflexão tão fundamental para os nossos dias, qual seja:
“A aflição demanda testemunho, o simulacro demanda a clínica do real. Há que se recolher fragmentos de experiência em que a pessoa/simulacro possa experimentar sofrimento: é o acesso ao sofrimento que lhe devolve a humanidade. São quadros que temos que manter discriminados, que demandam intervenções distintas por parte do psicanalista”. (visto em Safra)
1 -”Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma longa esperança malograda.
2 – O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda vida.
3 – Essa felicidade que supomos
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
4 – Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
(Vicente de Carvalho, Poemas e Canções – citado pela autora acima mencionada)
Em época de estabelecimento de relações perversas, que atravessam desde o procurado amor de parceria, até as mais complexas instituições, resgatar a ética contida no sofrimento do crescimento, talvez seja uma das saídas possíveis.
Esperança essa que se constituirá enquanto potência de vida, que traça o caminho do tecido afetivo que dá sentido à vida, que a preenche em cores, formas, cheiros, textura, temperatura e a tudo mais que fala daquilo que, em última análise, é o que faz com que nos levantemos a cada dia que nasce: nossos vínculos com outros seres, nossa capacidade de com eles construir algo que nos una, e que erga tudo aquilo que costumamos chamar de humanidade.
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