Tortura na TV – Por Eduardo J. S. Honorato
Tortura na TV
Antes de mais nada queiro deixar registrado que sou fã do Panico, seja na versão na TV, seja no rádio. Apesar de “escrachados” e debochados, acho que eles tem um importante papel na televisão, como fonte alternativa e livre de humor e imprensa. Há espaço para todo tipo de humor e o deles está garantido.
Entretanto, como fã e psicólogo, não posso deixar de me pronunciar frente a algo que tem se mostrado na TV e que tem me deixado bastante preocupado. O humor deve ser livre , logo…. alí se fala mal de negros, brancos, gays, heteros, bonitos, feios, famosos, anônimos…tudo é motivo para deboche, e sempre muito bem elaborado.
Da mesma maneira que as integrantes femininas do programa foram expostas a atividades físicas, digestivas (erghhh) e nada agradáveis, nada mais do que justo que um integrante do sexo masculino passasse por sofrimentos semelhantes….nada mais equalitário possível.
O quadro 5 Maneiras, com o personagem “Bola” foi criado e se tornou um dos pontos altos do programa. Foram vários os episódios engraçados, onde o ator teve que usar costumes e se submeter a atividades ridículas, como se vestir de king kong. Porém, no início os “ferimentos” eram sempre de leve, de maneira meio consequenciais de tais atos “estúpidos”. Entretanto, comecei a perceber ao longo das semanas que os ferimentos deixaram de ser as consequencias e passaram a ser os objetivos do quadro. Comecei a ficar um pouco intrigado, mas a coisa ainda estava meio “leve”.
Entretanto, não posso deixar de relatar que a coisa agora está me preocupando e não acho que isso esteja sendo saudável. Como profissional de Psicologia, com o objetivo de “não contribuir para a baixaria na televisão” acredito que é hora de repensarmos isso.
Os episódios mais recentes têm se mostrado bastante agressivos, com situações que beiram a tortura. O ator passou a ser agredido em pleno programa e as sequelas físicas passaram a ser veiculadas como troféu. Isto se torna preocupante em dois aspectos importantes:
1 – Estamos falando de um programa veiculado para um público jovem, adolescente e jovem adulto. Qual a NECESSIDADE de expor este público a este tipo de conteúdo? Não estou falando de censura por faixa etária, pois o programa tem sua delimitação de público, mas sim de usarem este espaço de maneira mais educativa e socialmente contributiva, como a campanha recente em apoio a “Lei Seca”, muito bem elaborada e criativa(mesmo sendo parte de merchandising – o que mostra mais uma vez que seus produtores são muito inteligentes – ponto pra eles!)
2 – Falar em tortura em um país com um passado de ditaduras como o nosso, é cutucar uma ferida de uma nação e de uma geração inteira. É como falar do holocausto de uma maneira “lúdica” para um Judeu. Assim como o Holocausto, nosso período de ditadura e negação total de direitos deve ser lembrado de uma forma EDUCATIVA, para que episódios absurdos como esses não se repitam, e não vangloriando a parte mais negativa e suja desse passado.
Sou fã absoluto do humor inteligente, do humor debochado, do humor livre…..mas há uma TENUE linha entre esse tipo de humor e alguns tipos de agressões. O segredo neste ramo deve ser conseguir chegar o mais próximo possível, sem ultrapassar essa linha.
Como já temos a prova anterior de que os redatores são muito competentes e habilidosos, tenho certeza que conseguirão reverter esse quadro.
Ah…vale ressaltar que o quadro Amy Winehouse iniciou muito criativo, e apesar de ser fã da cantora, acredito que ela não seja qualquer exemplo ou seu comportamento deva ser vangloriado. Acho que os redatores encontraram uma maneira bastante interessante de tirar um lado cômico dessa situação. Mas….ultimamente perdeu-se o sentido de ser engraçado. Enquanto dois dubles simulavam cenas de confronto….ok, mas passou a ser agressivo, com provas absurdas que visam agressões físicas.
Divido com vocês algumas pontuações feitas pela Psicologa e Psicanalista Denise DeschampsÇ
“Não assisto esse programa e sinceramente não apoio quadros humorísticos que façam de alavanca as fragilidades alheias. Pensemos na tendência ao perverso que encontraremos na infância e ainda no início da adolescência. Será que esses programas se tornam só catárticos ou acabam por construir modelos de imitação? Essa é a grande pergunta que a psicologia pode ajudar a encontrar parametros para a reflexão sobre. SE o chiste revela o recalcado, ou seja, a piada aponta para aquilo que temos dificuldade de assimilar na cultura, ela tem uma capacidade disruptora inerente e uma capacidade recalcante tb. Padrões éticos se constroem a partir desse tipo de questionamento, a tv tem obrigação de passar seus conteúdos pelo crivo dessas reflexões. O sado-masoquismo faz parte do recalcado ou quando melhor ainda, do sublimado. Esse tipo de quadro o que fará com isso? Atuado, recalcado ou sublimado?”
abs
-
Recent
- Psicologia e Direito – Convite para reflexões necessárias.
- O que pode estar acontecendo no Twitterlândia Brasileira…
- Dúvidas e Dívidas – Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
- Orkut: Sombra, Persona & Representações Sociais – Por Fábio Fischer de Andrade
- De onde vem a homofobia – Por Denise Deschamps
- Cinematerapia
- Mais do mundo digital – Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
- Susan Boyle – E o Show de Truman vai começar! – Por Eduardo J. S. honorato e Denise Deschamps
- Ainda sobre Maisa….
- Crise do capital e psicologia
- O Carrasco do Amor – Por André Luiz Tomé
- Caso Clínico
-
Links
-
Archives
- July 2009 (3)
- June 2009 (6)
- May 2009 (1)
- April 2009 (2)
- March 2009 (1)
- February 2009 (3)
- January 2009 (6)
- December 2008 (2)
- November 2008 (3)
- October 2008 (2)
- August 2008 (1)
- July 2008 (13)
-
Categories
-
RSS
Entries RSS
Comments RSS