A Pulsão na TV – Maysa, O SERIADO – por Eduardo J. S. Honorato
Comecei a assistir a mini-série Maysa sem a menor pretensão. O fiz atraído pela qualidade da imagem e produção. Quando soube que seria dirigida pelo próprio filho, senti um ar meio biográfico e resolvi apostar.
Logo no início comentei com a Denise (Deschamps, psicanalista e grande amiga) sobre a Maysa pois eu nunca soube dela ter sido tão famosa. Ela me confirmou que foi sim um grande nome da música, e então, resolvi pesquisar sobre ela e um pouco sobre a história da nossa música. Amezinando, assim, minha ignorância musical.
Li um pouco na net e assisti na TV ao mesmo tempo e cada vez mais fui me convencendo. Maysa me pareceu ser alguém com a fama da Madonna e algumas da Amy Winehouse. Em alguns momentos me lembra a Luana Piovani. Canta com o dom natural da Sandy com a veludez da Ana Carolina. Pra novas gerações, acho que só fazendo essa comparação pra entender a dimensão do talento e da exposição pública que ela estava sofrendo. Tão destrutiva como a inglesa com Lady Di e a americana com a Britney.
Como sou viciado em cinema, resolvi encarar a obra como tal, mas com algumas questões mais interessantes. Além de mais longa temporalmente, eu teria informações de fontes diferentes e poderia mesclar o real da mídia com o cinematográfico. Isso me dá a liberdade de fazer outras inferências, mas baseado na ficção….logo, sem qualquer necessidade de fidedignidade coma vida real. Os meus comentários então passam a ser sobre a PERSONAGEM retratada na mini-série, como exemplo.
Um ponto que achei interessante é o ator que faz o próprio diretor. Poxa…essa foi uma das primeiras vezes que uma criança com dentes incisivos protuberantes (Como o da Mônica, nos quadrinhos) aparece em um papel com fala em algum tempo. Nhum….isso quer dizer que o ator se deu bem, quando o Diretor também interfere com questões de auto-imagem, auxiliando no projeto.
Ao acompanhar os episódios, o tema alcolismo vêm à tona. Comecei a pensar sobre as questões pulsionais em compulsão. Subentendendo-se que a pulsão está desmontada em partes, teríamos somente a variação do objeto a qual ela está relacionada. O tabagismo também nós trás essa informação, além de resgatar, mesmo que momentaneamente, o “glamour” de se fumar em avião….ato que pelo bem da saúde coletiva, foi banido. (mas…quem fuma sente falta..sofre às vezes….risos)
A partir do seriado, pensei no caso dos dependentes químicos, que além da dependência orgânica, têm a depentência psicológica. Esse objeto (droga) desperta o desejo, que cega, que controla, que domina. Que satisfaz ao conseguir, mas que dura pouco. A satisfação é parcial apenas, então o ciclo recomeçata e tudo vai de novo.
Lembrei dos disturbios alimentares, onde se come em um controle “descontrolado”. Onde o objeto (comida) deperta uma pulsão que não beira a racionalidade que não pára enquanto não for saciada.
Não dá para esquecer dos jogadores mais compulsivos. Jogam sem controle, em uma busca incessante pela sensação de vitoria. Se consomem e são consumidos por uma outra situação, e quase cortam com a realidade. O objeto (jogo) desperta essa pulsão.
E quanto esse objeto é algo não tão visto como “negativo”. Por exemplo….Poderia alguém ter uma compulsão por chocolate? Tá…essa existe. E por ARTE? Ah não….claro que não!
Claro que sim. Baseado somente no personagem do seriado da televisão, me atrevo a inferir que a personagem Maysa é uma dependente da arte. Ela vive em função desse objeto. Se alimenta e é alimentada por ele, em uma relação quase patológica. Esse objeto ou a ansia em obtê-lo é maior do que tudo e maior do que todos.
Voces não acharam a Maysa “mãe” um pouco fria? Não…ela não é fria. Já comentei antes sobre a questão da maternidade não ser um instinto, e sim, uma pulsão, logo, nem todas as mulheres a teriam. Com isso, temos duas possibilidades: ou ela não tinha realmente a pulsão materna, ou SE tinha, não teríamos como perceber. O seu objeto (arte) a consome tanto, a desperta tanto, a domina tanto que ela deixa tudo em função deste objeto, até mesmo as demais pulsões. Essas passam para segundo plano. Pelo pouco que deu para ver, parece que a personagem Maysa conseguiu controlar e trabalhar algumas das suas pulsões, mas foi traída pelo destino
Fica a pergunta de qual seria o motivo para Maysa não ter sido repassada para as próximas gerações como esse “ícone” da música que foi. Porque a mesma mídia que a perseguiu e “urubuzou” tanto nao continuou e perpetuou sua obra como fez com a bossa nova? Fica sem resposta….
Eduardo J. S. Honorato
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Pra responder, só contextualizando: Maysa incomodava muito por ter ido justamente contra a corrente, derrubando uma série de mitos: do amor de mãe, incondicional (no sentido do padrão), por ter mostrado que conseguia viver fora de um casamento com um milionário. Quantas mulheres não gostariam de ter aquela boa vida, ainda hoje? Separou-se do marido quando ainda não havia divórcio no Brasil (até 1977 ). Tremendo ‘mau exemplo’!
Ah, e não podemos esquecer da censura e da ditadura. Ela ia totalmente contra o que os militares queriam…
Já a bossa nova era a beleza pura, o amor ‘demais’ e apolítica. Maysa era desejo puro. E poucos sabem lidar com isto.
Sandy e Ana Carolina estão há anos luz do talento de Maysa. A primeira pode até empatar em termos de carisma, mas a segunda é apenas mais uma modinha popularesca (como Simone, Joana, Roberta Miranda) que uma hora passa.
Quanto à questão do menino com os dentes de Mônica, eu explico o motivo de ele estar na minissérie: trata-se de um dos filhos do diretor e, portanto, neto de Maysa.