O Mundo da Moda – Por Eduardo J. S. Honorato
Em passagem por Manaus, Amazonas, tive o imenso prazer de fazer novas amizades. E, como de costume, o assunto “cinema” veio à tona. Um desses novos amigos, Pedro Cortês, citou o filme “O Diabo Veste Prada” (Devil Wears Prada, 2006). Neste, a eterna candidata ao Oscar, Meryl Streep interpreta Miranda Priestly, uma mega executiva de moda.
Streep é uma das maiores atrizes do cinema americano, e não foi à toa que já recebeu 15 indicações, levando para casa duas das mais desejadas estatuetas desengonçadas da Academia (Melhor Atriz em Sophie´s Choice – 1982 e Melhor Atriz Coadjuvante em Kramer vs Kramer – 1979). Quase 30 anos sem ganhar este prêmio, Meryl é mais uma vez uma das concorrentes para 2009. Algo já rotineiro para atriz, uma vez que já foi indicada para mais de 80 prêmios, já tendo recebido mais de 60. Isso mesmo…SESSENTA vitórias. Arrisco-me dizer que talvez seja uma das atrizes mais premiadas e talentosas de Hollywood. Cada vez que ela aparece na “telona”, não há a menor possibilidade de visualizar outra atriz no mesmo papel, dada a tamanha entrega que ela tem a arte. Merece muito mais prêmios.
Miranda é rápida, decidida, dedicada e workaholic, mantendo uma pequena parte humana e emocional intacta, mas que não pode demonstrar com frequencia. É uma das mulheres mais poderamos neste ramo de atividades: a moda. À primeira vista, este nicho de mercado pode ser entendido como algo simples e “bobo”, mas o filme trás uma cena muito marcante, e quem assisitiu se lembra bem dela.
Esta cena mostra os impactos que esta indústria pode ter na economia de diversos países e em como isto movimenta milhões ao redor do mundo. Para mim, Profissional de Saúde Mental, esta deve ser a mais importante cena do filme, pois além de mostrar potência desta indústria, muito criticada e apontada como causadora de vários problemas, se torna um bom ponto para repensar alguns conceitos e questões sociais interessantes.
Eu já escrevi alguns pensamentos sobre esse tema em debates virtuais, e vou reproduzir alguns deles aqui, despertado pela deliciosa conversa que tive sobre cinema e cultura recentemente. É importante percebermos e analisarmos este mercado, tão presente e tão importante, seja no impacto PSÍQUICO, quanto econômico que cumpre nos dias de hoje. Assim como a personagem Andy Sachs (Anne Hathaway), sempre mantive distância deste ramo, por achar que não tinha muito relação com meu cotidiano. Estava enganado e assim como a personagem, tomei um “soco no estômago” metafórico, pena que não foi dado por Maryll Streep.
Em 2007 assisti semanalmente ao programa Brazil’s Next Top Model. Além de gostar de alguns estilos de Reality Show (olha a pulsão escópica Lacaniana aí gente….risos), tenho uma amiga que era uma das candidatas, o que me “obrigou” a assistir. Fiquei bastante intrigado com afirmações dos jurados e participantes do programa de que algumas candidatas eram “gordas”, apesar de mostrarem um corpo normal e bem proporcional. O mesmo ocorreu na segunda edição do programa, e não consegui acompanhar até o fim, incomodado com algumas cenas que pareciam mais relacionadas a tortura e a crises de anorexia. Recusei-me a ver o sofrimento psíquico e físico de algumas candidatas. Tortura na Tv jamais!
Assim como este programa de TV, tive outro contato com o tema, ao assistir e escrever sobre corpo x moda, para a Revista Psiquê, usando como exemplo o filme Hairspray (2007). Um filme sobre“Imagem corporal”. Grotescamente definindo, seria a imagem psíquica que temos de nós mesmos. Em uma leitura mais Psicanalítica, sabemos que o processo de formação da imagem corporal tem, obviamente, sua base no que Freud chamou de “Princípio do Prazer”, e se funde com o próprio processo de formação do Ego, passando pela Ego Função e Ego Projeção, onde nossos sentidos (no termo mais biológico possível), são fundamentais, posteriormente sendo necessário o Outro. Ou ainda nas operações de alienação e separação no que Lacan denominou de “Estádio do Espelho”. (Revista Psiquê)
Nós, profissionais psi, sabemos do grande impacto que um prejuízo na auto-imagem corporal pode causar no comportamento de um sujeito, especialmente na adolescência. E em como as figuras parentais são importantes neste longo processo. Grande parte dos transtornos alimentares ocorrem hoje em adolescentes do sexo feminino, pressionadas por uma industria da moda e beleza, em uma plataforma de magreza exagerada. (Revista Psiquê)
Hoje me questiono se somente esta indústria deveria ser a “única culpada” destes impactos negativos que presenciamos no âmbito psíquico….Algumas considerações e reflexões que julgo serem importantes:
Assisti a um documentário na Tv a cabo (infelizmente não consigo me lembrar do nome) sobre Moda x Peso e fiquei bastante surpreso. Este versava basicamente sobre a incidência de disturbios alimentares entre modelos e astros de hollywood. Pq?
Eles buscaram a resposta na própria história recente da moda. Há alguns anos as agências de modelos comecaram a usar meninas cada vez mais novas nas passarelas. Garotinhas de 12 e 13 anos foram recrutadas para esse ramo, e, é claro, seu desenvolvimento biológico mal havia iniciado.
Assim, o “padrão” “raquítica e esquelética” não se originou de modelos magras e em dieta, mas sim, em um modelo de beleza INFANTIL. Ou seja…o “belo e desejado” passou a ser aquele seco, reto, sem curvas…..ou seja: de uma menina, ainda nao madura sexualmente.
Acontece que essas meninas-modelos chegaram aos seus 15 e 16 anos, e logo, souberam que só podem ser aceitas neste mercado de trabalho se continuassem com aquele corpo sem formas que tinham antes…e buuuuum….se dá o desenvolvimento de um distúrbio alimentar [nao esqueçam de que isso, eh claro, é apenas o fator desencadeante...]
Tente imaginar o sofrimento psíquico aos quais essas moças jovens são expostas. Quem já conviveu, atendeu ou teve contato com alguém com transtorno alimentar sabe da intensidade desse sofrimento. Se você trabalha ou tem vínculo empregatício, sabe que o “medo de perder” o emprego gera uma intensa angústia. Imagine se o fato de você comer uma barra de chocolate ou um prato de massas no final de semana pudesse acarretar na perda de um contrato de trabalho? Estamos passando por um período de crise econômica mundial e muitos temem por seus empregos. Pois é….algumas modelos sentem “esse medo” constantemente, simplesmente quando COMEM.
Por outro lado, as mulheres do mundo inteiro passam a ter como parâmetro de beleza essas meninas….e logicamente que tenderiam a ser como elas, emagrecendo cada vez mais. O efeito em cadeia começa aí. Logo…apresentadoras de tv, atrizes premiadas do cinema, atrizes de seriados…todas queriam então ser magras e disfórmicas, pois somente assim elas poderiam conseguir os tão almejados papéis nas super produções hollywoodianas.
E pq os studios de cinema só escolhiam as atrizes “semi-cadavéricas”? Simples…..pq quanto mais magrela e seca essa atriz fosse, mais “garanhão”, “grandão” e “másculo” o galã pareceria nas telas. Neste documentário supracitado, eles exemplicam com o Tom Cruise: um nanico!!! [eu posso chamá-lo assim pq sou mais baixo do que ele...ehehe]….que, ao lado de uma Sigourney Weaver (atriz de Allien), que mede quase 2 metros de altura, ele jamais seria visto pelo público como o super herói, que salva todo mundo usando apenas um cichlete superpoderoro e um oculos x-ray!
E depois, vêm mais efeito cascata. No artigo sobre as gerações, mencionei que o Ser é Ter, infelizmente. Com as modelos, atrizes, apresentadoras de tv, todo mundo com esse padrão de beleza, as adolescentes tenderam a seguir essa ditadura, e é por isso que desde o final da década de 90, os distúrbios alimentares estão no “top 10″ das Queixas Principais nos consultórios pelo mundo todo.
“Já o psiquiatra Celso Garcia Júnior, coordenador do ambulatório de transtornos alimentares da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), acredita que o aumento seja mais reflexo de uma demanda reprimida do que de uma mudança do perfil da doença.” (folha.com.br)
Os profissionais de Nutrição trabalham muito com o IMC – Índice de Massa Corporal, que grotescamente seria uma relação entre o seu peso e sua altura ao quadrado. Não quero adentrar nesta área, pois existem profissionais para isso. A tabela, sem os nomes científicos corretos, seria esta aqui:
Cálculo IMC
Abaixo de 18,5 – Você está abaixo do peso ideal
Entre 18,5 e 24,9 – Parabéns — você está em seu peso normal!
Entre 25,0 e 29,9 – Você está acima de seu peso (sobrepeso)
Entre 30,0 e 34,9 – Obesidade grau I
Entre 35,0 e 39,9 – Obesidade grau II 40,0
acima – Obesidade grau III
Fonte: http://como-emagrecer.com/calculo-de-imc.html
Ora, tecnicamente falando, um IMC abaixo de 18 não é considerado saudável. Mais do que correto e ético atentar para isso. Pensando neste ponto, em 2006, na Semana de Moda de Madrid houve um corre-corre e muita reclamação. As modelos com IMC abaixo de 18 foram proibidas de participar do evento. Alguns estilistas criticaram, outros apoiaram a medida, que para mim é um caso de SAÚDE PÚBLICA.
(http://estilo.uol.com.br/moda/ultnot/2006/09/18/ult26u22381.jhtm)
Será que esta medida teve realmente o efeito necessário? Resolvi pesquisar na Internet alguns dados de algumas modelos. Gostaria de alertar que estes são dados PÚBLICOS e não fidedignos. Como não sou nutricionista, nem nutrólogo, usei um site que faz o cálculo automático do IMC. Essas informações servem para algumas reflexões importante.
Exemplo:
- Gisele Bundchen (ubbermodel) – 1,80 / 52kg
IMC 16
- Vanessa da Cruz, [vencedora do Supermodel Brasil 2006] – 1,72 / 45kg
IMC: 14,5
Segundo alguns sites, algumas modelos chegam a MENTIR sua altura, se declarando mais baixas, para alterarem os cálculos do IMC. Uma colega, modelo na Europa, me contou uma vez que a “moda” lá fora era “tomar dois litros de água antes de se pesarem”, pois assim, aumentavam seu peso e não eram cortadas das seleções de modelos, lógico que logo depois da pesagem, o vaso sanitário era a próxima parada.
Bom….já coloquei alguns pensamento sobre a indústria da moda e seu impacto no psiquismo humano, mas acredito que algo “falta” nessa possível leitura de um fenômeno. Fiquei com a sensação de que existem outros fatores importantes nos dias de hoje que contribuem para estes casos de transtornos alimentares. Resolvi ler um pouco mais e colocar alguns pontos para reflexão.
Diversas foram as “celebridades” que já declararam publicamente que sofreram com Transtornos Alimentares, dentre elas, Lady Di, Christina Aguilera (com seu videoclip de Beautiful), Victoria Beckham etc. Essa semana, tive o desprazer de ver uma imagem de Lidsay Lohan jogando boliche. Seu corpo pareceria mais uma aula de anatonia, com sua estrutura óssea toda a mostra.
Recentemente saiu na Internet uma notícia (folha.com.br) informando que “Garotos já ocupam 60% dos leitos para anorexia no HC”. Sim…..homens também desenvolvem anorexia. É comum acharmos que somente as meninas aspirantes a modelo desenvolvem esse quadro. Mas….então….seriam ELES também “escravos do corpo e da moda”?
Isso me leva a refletir que existem OUTROS FATORES estimulando esses quadros atuais. Culpar a “indústria da moda” é criar uma relação de causa e efeito que não pode, ou deve, ser linear. Se pensarmos na moda como um ARTE, não podemos culpar os artistas somente por suas consequências. Se fosse assim, teríamos que culpar a indústria automobilística pelos acidentes de carros, uma vez que muitas usam pilotos profissionais fazendo “peripécias” com seus produtos. Ninguém faz barbeiragem no trânsito pq viu na propaganda na televisão.
Vou citar alguns outros quadros patológicos que vêm crescendo nos últimos anos. A VIGOREXIA (Síndrome de Adônis), por exemplo, é um quadro bastante complexo e que tem chamado à atenção dos especialistas. Sabe aquele seu amigo “marombeiro”, “bombado” que usa anabolizantes e que está parecendo um touro de tão inchado e deformado? Pois é…isso PODE ter vigorexia. Qual a diferença entre o Vigorexico e a Anoréxica? Ambos colocam a saúde em RISCO, seja por não ingerir alimentos, seja por ingerir substâncias nocivas ao corpo. Ambos tem distorção da imagem corporal e para isso, levam seus corpos a limites, se tornando nocivos ao próprio organismo (Ler sobre Pulsão de Morte – Freud).
Já ouviram falar de Ortorexia? Pois é…como dizia minha avó: “nós podemos morrer pela boca”. Este transtorno se caracteriza por um compulsão em comer produtos NATURAIS. Em cidades onde a estética corporal se torna algo necessário para ser aceito, uma vida saudável é “obrigatória”, abre-se mais uma possibilidade de compulsão. Este trantorno não tem reconhecimento mundial, pela OMS, não com esta nomeclatura, mas já existem relatos de pacientes que passam FOME, por se recusarem a comer qualquer produto que seja industrializado, que tenha gordura X ouY ou que não obedece a SEUS critérios rígidos de “saudável”. E será que precisamos e uma nova nomeclatura para ele? Não……mantêm-se uma comPULSÂO, e muda-se apenas o objeto pulsional.
Onde TER É SER, e SER é TER, abre-se espaço para COMPULSÕES e em uma sociedade consumista como a nossa, a tendência é que esses quadros se acentuem mais e mais. Com isso, pode-se perceber que além da indústria da moda, a indústria da beleza, dos cosméticos, a indústria televisiva, a mídia, todos estes são fatores que influenciam nesses quadros e culpar apenas a “moda” é mais fácil, porém, sem eficácia alguma. Se pudéssemos fechar a indústria da moda, com certeza, os transtornos alimentares continuariam a chegar em nossos consultórios. Logo, é hora de pararmos de culparmos um único segmento e colocarmos a mão na massa para revertermos esses quadros psicopatológicos.
A quem se interessar pelo tema, sugiro que dê um Google no termo “International Journal of Eating Disorders” e leia os excelentes artigos publicados.
Eduardo J. S. Honorato
Christina Aguilera – Beautiful
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Excelente!
Abaixo à escravidão da aparência!
Beijos!
É, Eduardo, o quadro é preocupante. Não sei se você sabe, que nas cidades litorâneas os transtornos alimentares são mais frequentes. Afinal tem o ‘teste da praia’, ou do biquini – vi este dado em uma pesquisa, há algum tempo, mas não tenho mais a fonte. Há alguns anos li também que uma modelo então famosa disse que felizmente ela não era ‘gorda’ como a Marilyn Monroe. Bem, quem disse isto eu já esqueci, já a Marilyn continua como símbolo sexual.
A indústria da moda e cinematográfica cultivam este modelo ‘anoréxico’ até porque a fotografia e o cinema criam a ilusão ótica de que tudo é maior. Alguém muito magro na tv aparece como normal. Alguém normal parece ‘obeso’. Daí vem a obsessão dos atores e modelos, já que os que selecionam realmente impõe o padrão.
Veja bem, não to justificando não, muito pelo contrário – afinal, estou bem acima do peso convencional. [;)]
O problema hoje em dia é agravado pela mídia, sim, mas pais e mães também às vezes impõem este ideal. Já houve novela e filme sobre isto. Vou tentar lembrar nomes.
Adorei o texto, Eduardo.
Sugiro também que vc leia o livro da Lauren Weisberger. Há muitas diferenças entre ele e o filme. Miranda Priestly é muito mais implacável com a Andrea, que vive à beira de um colapso fisico e mental.
Abraços!