O perdão e o desapego – Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
Não imaginamos que um texto sobre algo tão comum “Desapego”, fosse causar tanto impacto. Agradecemos a todos que escreveram, comentaram e perguntaram mais sobre o tema. Nosso objetivo é divulgar textos que levem a reflexões, e não a respostas exatas. Para cada conflito existe um caminho e a reflexão é o primeiro passo.
Continuemos em nossa temática sobre objetos, investimentos, lutos, desapegos e perdão.
Alguns amigos ficaram intrigados em relação ao que nos referimos ao falar em perdão no texto anterior. Qual relação teria perdão com desapego? Estranha essa junção, parece um paradoxo, porque geralmente, pelo senso comum, entendemos perdão como caminho para uma reaproximação.
O que é perdoar, no sentido religioso? Isentos de religião, crença ou filosofia religiosa.Perdoar nao precisa estar atrelado, por exemplo, a uma religião. Você pode “perdoar” mesmo sendo ateu ou agnóstico.
E o que propusemos no texto é que perdão pode ser exatamente o caminho para o desinvestimento, ou seja, o que possibilitará a retirada de investimento daquele objeto perdido (que lembremos mais uma vez, pode ser um trabalho, um vínculo afetivo, um objeto material, uma posição social, um analista(rs rs) etc)
Alguns psicoterapeutas acreditam que uma psicoterapia(ou ainda psicanálise), em seu fim último, teria como meta perdoar nossas imagos parentais, aquelas onde fundamos nossas fixações e que norteiam nossas buscas de investimento e identificação. Essas imagos são construídas ao longo do nosso desenvolvimento e têm total relação com o mundo exterior e em como vivenciamos cada fase do desenvolvimento psicossexual
Sem esse desinvestimento não somos capazes de “quebrar” nossos padrões de repetições, pensamos sair e o que vemos em novos modelos são as conhecidas repetições. Após alguma perda, vocé já se perguntou, por que “diabos” cometeu novamente uma escolha que levou a um desfecho muito conhecido?
Freud nos falará do demoníaco das pulsões, naquilo que abordamos um pouco no texto anterior e que se nomeia em psicanálise de “compulsão à repetição”. Ruben Alves, famoso psicanalista e colunista da Revista Psiquê, têm escrito, nas ultimas edições, sobre os “demônios” (se puder, leia.).
Ah, essa maldita pedra em nosso sapato (repetindo), que “volta a incomodar” aonde justamente pensávamos estar nos libertando, ultrapassando velhas armadilhas.
Como diria a letra da música cantada belamente por Raimundo Fagner: “Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar, sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar…”
Sem o caminho do perdão que leva ao esquecimento e quebra de laços, não será possível seguir adiante. Tenha esse objeto morrido fisicamente ou apenas morrido como possibilidade de investimento.
Mas então que perdão é esse do qual falamos? Tenhamos claro que está muito longe do “dê a outra face”, muito pelo contrário. Ele é apenas uma tarefa de desinvestir, resgatar da vivência com o objeto perdido tudo que construir possibilidades de crescimento e embora muitas vezes a relação com esse objeto perdido seja de ressentimento e mágoa, será necessário reorganizar-se a partir da compreensão de que somos senhores dos nossos destinos e que, infelizmente, nada acontece por acaso.
Ou seja, se o objeto se foi (real ou imaginário) é preciso desfazer essas conexões e o “perdão” é uma maneira de retirar essa libido dos objetos.
Aprendendo com os erros, entrando em contato com as “figurinhas repetidas” do álbum de memória, poderá, quem sabe, mudar seus padrões e escolher objetos com características diferentes, fazer outras alianças, contemplar o ego negociando sob outras bases com os senhores dele.
Pense sobre seus relacionamentos, namoros, etc. Eles têm algo em comum? As pessoas pelas quais você se interessa, possuem alguma semelhança? (que pode ser física, de caráter, comportamento, etc)
Lembram? Faixa de Gaza, sim muitos não entenderam o que queríamos dizer. E esse realmente era o objetivo. Vários perguntaram o que significada, e isso foi de propósito. Não é possível refletir sobre “tudo” em um mesmo texto.
Esses senhores que habitam em nós são surdos uns aos outros (Id, Superego e Realidade), querem que se realizem suas “vontades”, falam todos ao mesmo tempo com nosso frágil Ego que entre conversas ensurdecedoras e maioria das vezes impulsos absolutamente contrários, vai tecendo acordos contemplando um pouco cada um deles. Uma hora pode, outra não pode. Uma hora pode, mas com um pouco de sofrimento. Às vezes “pode”, mas não tem “graça”.
Dependendo de quem se contempla e como, teremos os diferentes modos com os quais o psiquismo poderá lidar com esse desinvestimento e novo investimento. Em psicanálise chamaremos isso de formações de compromissos(acordos de paz) e formações substitutivas. Podem ser sintomas ou sublimações (eg: esportes agressivos), todos envolverão complexas operações de dentro do aparelho psíquico.
Então dependendo do grau de negociação que o ego fez, não adianta apenas você repetir mil vezes em frente ao espelho que fará diferente, há em todos nós, naquilo que nos move, muito de desconhecido, um livro no escuro que muitas vezes só poderá ser lido à luz de uma passagem por uma psicoterapia.
Como se fosse um livro escrito em uma língua que sabemos falar com boa pronúncia, mas não sabemos traduzir. Já tentou ler um livro em um idioma que você não domina?
Faça esse teste. Leia as frases e perceba que você entenderá apenas algumas “palavras” soltas. Pode não entender nada também. Pode ACHAR que entendeu, mas na verdade o significado era outro. Assim somos com o nosso psiquismo. As vezes não entendemos nada dele, as vezes entendemos errado, e as vezes nos comunicamos muito bem com ele.
Outras vezes, com sorte, alcançamos um entendimento e por caminhos inúmeros conseguiremos promover novos acordos, importante lembrar, que esses acordos passam inevitavelmente em olhar para esse objeto perdido, agora destituído de atração, daquilo que nos ligava a ele. Pense em alguém que morreu, e que você “até” tinha sentimentos não tão positivos, ou tinha alguma mágoa. Veja se consegue se lembrar “desse objeto” e em como “somente as lembra positivas ou neutras” se mantêm. Pense em um animal de estimação ou assista ao filme “Marley e Eu”. Repare que na imagem que se mostra aparecem as questões ruins (sujeiras, mordidas, estragos na casa), mas são agoras engraçadas e apenas lembranças e o que fica é somente o sentimento bom, ou de “saudade”. Isso é elaborar bem um luto.
A isso chamamos perdão, olhar o objeto como alheio, como um algo que não movimenta mais nossas energias. Muitas vezes percebendo nesse objeto suas próprias limitações em termos dos vínculos que a partir dos nosso próprio desejo, lhe impusemos características que não pertencem necessariamente a sua especificidade. É obvio então, que você pode lembrar de algúem ou de algo que não lhe desperta nada de “bom”, mas pelo menos, não desperta aquela “raiva e angústia” que despertava antes.
Que trabalho, não acha? Por isso não adianta pensarmos em domesticar ou adestrar nossas emoções, conter-se, sem que antes tenha se promovido uma boa mesa de entendimentos e negociações múltiplas. Para que essa mesa promova resultados, há que se perdoar, ou seja, desinvestir.
Olhando para o passado perceber nos cuidadores de sua infância suas próprias limitações e impossibilidades, seguir adiante, abrir mão de ser o promotor para sempre em um tribunal de eternas acusações, agora atualizadas em suas novas parcerias. Sim, essa maneira como lidamos com nossos objetos está diretamente ligada a nossa infância e em como aprendemos a lidar com eles.
Interessante observar que em alguns países esse conhecimento sobre esse perdoar, tem levado famílias de vítimas à conversas com os criminosos responsáveis pelo ataque, parece que com bons resultados de superação para esses familiares que se dispõem a isso. Pensemos nisso em relação aos nossos objetos perdidos.
Resta uma última questão. Como se pode ter raiva e ressentimento de alguém que morreu e era por nós muito querido?
Entenderemos isso porque o psiquismo só consegue ver o abandono e isso gera mágoa e ira. As crianças que perdem entes queridos costumam falar disso abertamente, falam que a pessoa “sumiu” e muitas vezes demonstram de maneira clara, a raiva que isso lhes provoca.
Ah, mas e um adulto, como pode fazer isso? Frente à dor da perda, seremos arremessados com uma força de impulsão tremenda para os nossos conteúdos mais infantis. Já reparou como reagimos nos momentos mais “estressantes”. Perceba como você reage frente a dor, angústia, perdas, sofrimentos, etc.
Frente a essa desorganização da perda, que essa nos provoca no aparelhamento psíquico (caos nas pulsões), a elaboração do pensamento mais “educado” e “civilizado”, meio que sucumbe a essa pressão e precisa de um tempo, longo tempo, para restabelecer seus laços com a realidade e lidar novamente com seu entendimento racional. Precisamos de Tempo para Pensar e Refletir. O corre corre dos dias de hoje talvez não nos permita muito isso, mas com certeza em nosso Inconsciente atemporal, essa tarefa terá que se realizar.
Então é isso, se você perdeu um objeto importante(lembre-se que é qualquer coisa) pense em perdoar, ir adiante, visite com honestidade sua mágoa, faça a faxina, descarregue e siga adiante aprendendo e quem sabe construindo novas possibilidades de fazer laços mais prazerosos e saudáveis. Tire a carga, é só resto, nada mais.

Fonte das imagens:
1 – http://www.lifestruth.com/images/forgiveness.jpg
2 – http://dlibrary.acu.edu.au/research/theology/ejournal/aejt_9/images/forgiveness.jpg
3 – http://www.comunidade.cn/upload/escritofoto/106661.jpg
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“…um livro no escuro que muitas vezes só poderá ser lido à luz de uma passagem por uma psicoterapia”.
Ainda há pessoas q pensam q psicoterapia é instantâneo, mágico. Q resolve tudo em algumas sessões.
Por mais q percebamos um amadurecimento promovido pela mesma, tem coisas MUITO difíceis de superar, perdões difíceis de fazer.
Às vzs pensamos q, com uma separação, uma perda, onde “” não sofremos”, está tudo bem conosco. “Somos pessoas bem-resolvidas”… PURA NEGAÇÃO!
Mas se temos o suporte de uma psicoterapia, mesmo q passe algum tempo, vamos elaborar esse Luto.
Vai chegar o dia em q vamos chorar todas as lágrimas q não choramos qdo da perda; vamos sentir tristeza, saudade, medo… e vamos perceber q, oq acontecia antes era uma espécie de “cegueira”, e q na verdade, estávamos cheios de mágoa guardada.
É nesta hora, depois deste turbilhão de sentimentos, q as boas recordações virão, trarão uma espécie de serenidade, uma alegria sem exageros, sem aquela “maniiiaaaa” toda, e perceberemos q “não é mais meu… não existe mais o NÓS”, e conseguiremos perdoá-lo (e nos perdoar, pq não?!) e deixaremos q este se vá, com um sentimento de alívio.
Não mais negaremos os momentos ruins ou ou bons.
Mas qdo vierem as boas recordações, sentiremos uma leve saudade, sem ficar sofrendo pq estes momentos não mais existirão.
E qdo vierem as más lembranças, iremos ver q lições tiramos delas, oq pudemos aprender, e não sentiremos aquela carga pesada de raiva, rancor, ódio, mágoa…
Bem, eu vejo assim a questão do Perdão e do Desapego, atrelados.
É difícil, mas não impossível.
À luz da Psicoterapia conseguimos ler este livro, pq sozinhos é beeeeeem difícil!
E como diz a música: “não vou mais lhe segurar, vou deixar q vc se vá”; até pq, o VC já não estava mais COMIGO há mt tempo, mas provavelmente eu insistia em achar q sim, e tentar prender a mim, amarrar, amordaçar e achar q estava “bem guardado”…
Como eu disse no outro post, é preferível guardar lembranças. =)