O Carrasco do Amor – Por André Luiz Tomé
Psicólogo – CRP 04/30032
psic.andre@hotmail.com
Sabemos que a solidão é inerente ao ser humano, porém ela se apresenta de uma forma bastante temida, as pessoas tentam anula-la de toda maneira e muitas vezes usando o outro como um escudo para se proteger, dessa forma quebrando a possibilidade de um relacionamento saudável, uma tentativa de fugir da solidão é a fusão, o abrandamento das próprias fronteiras, a dissolução do eu em um outro. Essa fusão elimina a angustia provocada pela autoconsciência de solidão eliminando-a, através da paixão a pessoa ingressa nesse estado fusional, e perde sua capacidade de auto-reflexão, pois o eu solitário questionador se dissolve em nós, dessa forma a pessoa se livra da angustia da solidão porém perde a si mesma.
É necessário atentarmos para os cuidados que devemos tomar frente a essa relação fusional denominada amor, o poderoso apego exclusivo a uma pessoa, como um amor encapsulado que se alimenta por si só, não dando e nem se importando com os outros, esse esta destinado a se desmoronar sobre si próprio, o amor não é um acontecimento que envolve apenas duas pessoas, o amor é um modo de ser, um “dar a”, não um enamorar-se, e sim um modo de se relacionar como um todo, não como um ato solitário e limitado a uma só pessoa. Devemos considerar ainda que um relacionamento saudável consiste em duas vidas que caminham paralelamente e não duas pessoas que vivem uma só vida na tentativa de unificarem suas existências pelo simples fato de estarem identificadas.
Se conseguirmos entender melhor os conceitos dos sentimentos que nos constituem e nos transformam, teremos uma maior capacidade para desautorizar sua complexidade (obviamente isso não quer dizer que teremos controle sobre eles). Imaginem que somos cada um uma tela em branco e refletimos todo o sentimento que o outro nos projeta e desta mesma forma projetamos no outro todo a nossa necessidade de amor, de segurança e de apego. Desta forma está posta a reciprocidade, e ratificada a estrutura da relação de troca onde as pessoas amam para serem amadas, colocando esse sentimento como sendo dialético, que exclui qualquer possibilidade de ser, não existindo esses conteúdos de entrega, simetria e troca. Querer ser amado é querer colocar-se para além de todo o sistema de valores do outro, o amante sempre exige que o amado lhe sacrifique, em seus atos, a moral tradicional e preocupa-se em saber se o amado trairia seus amigos por ele, se roubaria por ele, se mataria por ele, etc.
Não poderia deixar de citar nesse texto também a relação que foi constituída entre ciúmes e amor. É comum ouvirmos que quem ama cuida e a condição de cuidar as vezes resulta em vigiar, ter sobre os olhares os passos e a rotina do outro, e a esse conjunto de ações acrescido de sentimentos de posse damos o nome de ciúmes. Novamente então, podemos recorrer ao conceito de que o amor liberta e não escraviza, a insegurança nos impulsiona a esse segundo sentimento, vale ressaltar que não estou dizendo apenas sobre a segurança no relacionamento e sim na auto-afirmação, na segurança interna, no equilíbrio sobre seus atos. Posso então definir que: Ciúme é um sentimento de aniquilamento do próprio eu diante de um rival bem sucedido, pois é o resultado do desequilíbrio emocional e da insegurança externa. E quando a relação chega nesse ponto já não existe mais base, estrutura, e está fadada ao fracasso, mas é claro que ambas as partes não conseguem admitir tal falência.
Obviamente não existem conselhos e explicações para uma relação saudável, porém diante de certas reflexões podemos aumentar nossa percepção no sentido de viver autenticamente nossas decisões amorosas, lembrando que o amor deve sempre permanecer como um efeito colateral ou produto secundário, do contrario será anulado e comprometido na medida que se fizer como um objetivo em si e buscado compulsivamente.
Bibliografia
CAMON, V.A. (Org.). Vanguarda em Psicoterapia – Fenomenológico Existencial, São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004.
YALON, I. D. O Carrasco do Amor – Rio de Janeiro: Ediouro, 2007
ROGERS, C.R. Sobre o Poderr Pessoal- São Paulo: Martins Fontes, 1978.
ROGERS, C. R. Psicoterapia e Consulta Psicológica – São Paulo: Martins Fontes, 1987.
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Sobre ciúme, adoro o que Roland Barthes disse em “Fragmentos de um discurso amoroso”:
“Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”
Quanto a o “Carrasco do amor” (antes “Executor do amor”) li há tempo e teria de reler para poder lembrar o que os mobilizou tanto neste livro. Agora, certamente, quando o ciúme é uma tentativa de evitar a solidão (tema fundamental na abordagem existencialista) torna-se um remedinho amargo. Bom ponto para o psicoterapeuta trabalhar…
Oie! Achei teu blog meio que por acaso e a proposito, gostei muito, muito mesmo! Não sou estudante de psicologia nem nada, mas me interesso pela área e há algum tempo venho “estudando” sobre através de livros, internet, etc. Esse teu espaço, a proposito, me veio na hora certa! Virei sempre aqui…