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Sobre Michael – Vida, Morte e Show – Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps.

E o espetáculo tem que continuar…
Morre um ícone e nasce um mito….

Apagam-se as luzes em um fim trágico, morre um ícone da música que marcou algumas gerações, apresentações alegres, melancólicas, ousadas, bizarras, as vezes convite pra pensar um mundo melhor. Um mundo que olhe para o “estranho” de cada um de nós sem tanto espanto e riso.

mj1Sabemos de Michael uma criança sofrida, explorada, abusada que viu seus sonhos e seu grande talento serem triturados pela máquina do dinheiro e do espetáculo. Podemos aqui dar uma pausa e pensar no filme “The Fever” para nos inspirar a pensar o mundo, pensar no pequeno Michael nesse mundo. O valor de cada produto, as vidas envolvidas na confecção de cada um, no Deus da atualidade, o Senhor Dinheiro.

Tudo na vida dele foi alimento para a mídia e sua morte não poderia ser diferente. Vai deixar um legado de “Mito” e de assuntos para os mais variados tipos de programas…..pelas próximas décadas, afinal, para isso que mitos também servem nos dias de hoje – produtos.

Há algum tempo falamos aqui em “tornar-se produto” em como isso exige “ego resiliência”. Por outro lado, temos ainda um “medo” quando as coisas aparecem na mídia. Parece-nos que nada pode ser dito ou feito, pois está tudo “certo”.
Michael será lembrado pela suas qualidades e excentricidades, assim como são hoje Elvis Presley, Janes Joplin, Jimi Hendrix entre tantos outros. Será também lembrado como gênio, talento musical admirável. Sim, porque MJ mudou muita coisa pelo mundo, em diversas áreas, mesmo não sendo inventor ou intelectual.

mj2Conseguiu mover multidões maiores que quaisquer políticos. Conseguiu “convencer” bilhões de fãs a seguirem sua música, seu estilo, suas mensagens. Foi um convincente articulador de grupo, talvez nem se dando conta disso. Criou seu próprio mundo mágico e vendeu ingressos pelo mundo todo. Ele nos permitiu que vivenciássemos sua “vida”, suas fantasias. Nesse mundo mágico fomos confrontados com tudo aquilo que fala mais profundamente do humano em cada um de nós, essa mistura entre ideais e conteúdos perversos, sublime ação e o obscuro de nossas pulsões.

Difícil classificar esse ídolo pop, entre a criança com voz de anjo e o “adulto” com cara de menino que dançava com os zumbis, nos trazendo uma metáfora dos tempos modernos, talvez como o outro gênio, este no cinema, Charles Chaplin. Trabalhava brincando e talvez brincasse trabalhando, entre o lúdico e o perverso que constrói humanidades naquilo que é possível. Entender as possíveis polêmicas que giram em torno da sua suposta pedofilia, ver o filme “O Lenhador”, quem sabe nos ajude, a pensar nisso a partir do nosso próprio estranho.

Sem legitimar a pedofilia, porque isso não é possível, pelo ato dela que invade ao direito a um desenvolvimento psicossexual garantido por um adulto interditado e interditor, que possibilitará o simbólico tão caro à construção do que há de civilização em nossos possíveis vínculos.
Já faz um tempo, o psicanalista Contardo Calligaris escreveu sobre Michael, pontuou com muita pertinência que o MJ acusado de pedofilia não era um adulto, mas sim, uma “criança”. Sabiamente, em 2007, ele escreveu:

“E tudo indica que, nas festinhas de dormir todos juntos na Terra do Nunca, não se trata de pedofilia. Deviam acontecer coisas impróprias: toque aqui, que toco lá, mostre lá, que mostro aqui, iiiii!, vamos dar beijo de língua. Ou seja, entre os lençóis de Jackson, devia acontecer o que pode acontecer quando crianças se amontoam numa cama sem que haja adultos por perto.
Pelo que sabemos, Michael Jackson não é um pedófilo, mas uma criança que eventualmente brinca com o faz-pipi (o seu e o dos amiguinhos).”

Assistimos maravilhados a uma criança milionária, sem “freios”, a fazer o que queria, nitidamente pedindo ajuda. Milhões de dólares envolvidos, falsos “auxiliares”, muitas drogas “lícitas” sendo traficadas. Tudo virou sinônimo de notícias e de assunto.

Endeusado ou acusado, ali a expor feridas que nunca cicatrizavam. Ele mesmo declarou ter tido uma infância abusiva, neutralizada, anulada. No que agora talvez fosse definido como trabalho escravo infantil. Mesmo não se comparando as condições mais invasivas, como de algumas de nossas crianças, os danos psíquicos de qualquer exploração nessa fase, aparecem. Não há como “banalizar” a forma como a exploração está sendo feita. Até onde vivenciar um talento ou explorá-lo pode ser definido com precisão? Talvez a morte de Michael nos deixe mais do nunca às voltas com essas questões. Talvez Susan Boyle seja outro “analisador” importante nesses nossos tempos espetaculares (escrevemos aqui no Blog sobre esse caso), talvez Mozart o tenha sido em outra época(ver o filme “Amadeus”). Quando decidiu ser pai, optou por ter “amiguinhos”, como uma criança de 7 anos que brinca de casinha. Aos filhos deu a máxima proteção contra a mídia, escondendo seus rostos. Não queria nenhuma exposição, nem mínima deles.

Todos sabiam das acusações que pesavam contra ele, que remetiam ao fato de ser ele um abusador e dos imensos acordos milionários que foram feitos em torno disso. Todos sabiam da sua infância abusada e sofrida, com muitas agressões. Todos sabiam do seu exagero de plásticas e deformação….e possível distorção de imagem “corporal”. Todos sabiam dos seus problemas da pele e suposta mudança de “cor”. Mas ele ainda atraía multidões e era um ser “acima dos normais”. Talvez porque escancarasse para nós essa busca contemporânea de uma uniformização de valores, uma hegemonia que atravessa até o estado emocional que devemos almejar, como o Soma de Huxley em seu “Admirável Mundo Novo”. Ou ainda como os seis personagens de Luigi Pirandello, em busca de um autor. Quem será o autor do texto dessa contemporaneidade?

Todos foram pegos de surpresa na última semana com a morte de Michael Jackson. Quem leu na Internet, jurou que era um “hoax”, uma pegadinha. Quem ouviu nas rádios, achou que era alguma referência a programas de comédia. Quem viu na televisão talvez tenha acreditado mais fácilmente. Nós aqui fomos tomados de surpresa, incredulidade e choque.

Morre Michael, o homem Nirvana, e nesse momento, nasce o “Mito”. Sim…ele era famoso, era adorado e idolatrado. Era venerado e talvez um dos artistas mais completos que existiu. Mas até então, ele ainda era “humano”. Tinha carne e osso (há controvérsias), ainda era algo paupável, existente, e assim, dotado de defeitos.

Com a morte física, ocorre no âmbito social o que também ocorre no psíquico, no processo de elaboração de luto, proposto por Freud. Com o tempo, as boas “conexões” de mantém e algumas não tão boas, perdem o investimento libidinal.

Elvis e Janes talvez não tenham usufruído desse poder que a mídia moderna tem. Com a tecnologia, os espaços físicos foram diminuídos em sua importância, bem como questões temporais. Talvez tivessem tido impacto tão grande quanto Michael, se pudessem contar com esses recursos.

Mas MJ TINHA que ser diferente. Ele á “mais” especial, ele era mais “excêntrico”. E isso nos explica o motivo das imediatas desconfianças no mundo virtual e real, sobre sua morte. TEM que ter algo misterioso para que o mito seja maior ainda. Todos imaginam, ou sabem, ou desconfiam ou podem até mesmo, saber. O que importa é que um grande ícone, como JFK, Marilyn, Ladi Di e tantos outros, tem que ter uma morte misteriosa, que leva à perguntas para outras e outras gerações.

A mídia jamais deixará. Ele terá sua morte transformada em Reality Show. Tudo vai ser investigado, vasculhado, alertado. Câmeras de televisão 24h em todos os locais, todos os furos. Era a informação perfeita que faltava para alimentar muitos e muitos canais e programas, por SEMANAS. MJ, que ao longo de sua vida deu muita matéria para esses meios, não pode “ir assim” sem dar mais um pouco de lucro.

Já debatemos aqui sobre isso e em outras comunidades virtuais. Há uma linha pequena entre o saudável e o perverso, mesmo nas questões midiáticas. Há que se ter um “limite”.

Veremos jovens hoje declarando que queriam a vida “dele”, “ser ele”, “ter o sucesso dele”. Insistimos aqui na pergunta de qual preço foi pago para essa transformação em produto?

Apresentou ao longo de sua vida, significativos sintomas de quadros que necessitavam de auxílio psicológico e psiquiátrico. Centenas de cirurgiões plásticos, especialistas em todos os assuntos, já haviam declarado que ele havia “passado dos limites” e muitos chegaram a se negar a atendê-lo. Mas sempre tinha um “espertinho” querendo um pouquinho da fama dele, e para isso, se faz tudo. Assistimos todos calados a uma pessoa se deformar ao longo dos anos, verbalizando apenas “duas” mudanças em seu rosto desfigurado. Tudo muito banalizado.
Mas até nisso encontraremos alguma beleza, alguma denúncia e resistência ao banal de todos nós.

Essa é uma constatação, outra que podemos trazer, enquanto pergunta, será a de que talvez ele tivesse o direito de fazer com seu corpo, sua imagem, o palco mesmo de suas representações, no mais profundo e complexo “Teatro do Corpo”(MCDOUGALL, J.).

O corpo hoje talvez tenha mesmo ganhado uma possibilidade de demonstrar em si sua própria ausência, “desafetado”, ou ainda as tentativas de se rebelar contra a pasteurização do pulsional. Michael em sua angústia atuada nos deixa de legado essa questão sublinhada.

Mas, de qualquer forma nos perguntaremos se será que alguma organização ou união profissional, não poderia declarar publicamente e auxiliar nas questões plásticas. Vamos continuar permitindo que pessoas se deformem a todo custo, em rede nacional? Quantas e quantas pessoas ainda não fazem isso nos dias de hoje? Basta ligar a tv em qualquer canal nacional ou internacional. Até onde questionamos por repressão, transformando em cômico, até onde vai o limite que fala da preservação da vida?

A questão é que a mídia dos dias de hoje torna tudo muito rápido. Fenômenos estão emergindo e submergindo. Pessoas são descartadas em menos de seis meses. Crianças voltam a serem usadas como atração. Tudo muito rápido e tudo muito seguido. Amy Winehouse será a próxima? MJ durou 50 anos, quanto tempo ainda restará para Amy? (comentamos sobre isso também em outro post aqui)

Se pensarmos na nossa mídia nacional, não temos muita diferença. Quantos “Reality Shows” temos hoje que “cruzaram essa linha”? Quantos programas viraram “caça-tragédias”? Quantos noticiários passaram a expressar somente esses casos e deixaram o jornalismo de lado? Quem vai transmitir o primeiro assassinato ao vivo, em tempo real?

mj3Nessa semana de MJ, onde estão os atos secretos, o Irã, as falcatruas e as notícias realmente importantes? Mas isso não vende. Assim como paramos pra ver alguém acidentado sangrando na calçada, pararemos para seguir atentos às notícias sobre a morte de Michael, amando-o ou odiando-o, maioria de nós estará lá, todo tempo ou em alguma parcela dele, realizaremos nossos impulsos mais inconfessáveis, sem culpa.

Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
www.cinematerapia.psc.br

June 28, 2009 Posted by Eduardo Honorato | Cinema-TV | | No Comments Yet

Orkut: Sombra, Persona & Representações Sociais – Por Fábio Fischer de Andrade

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A internet hoje é algo trivial em nossas vidas. Através dela nos comunicamos; pagamos contas; fazemos compras; publicamos informações, notícias, fotos, vídeos, etc. O leque de possibilidades aumenta na velocidade de um click no mouse. Dentre os inúmeros recursos que a internet dispõe estão as comunidades virtuais. São, em síntese, sites onde as pessoas têm a oportunidade de trocar informações com outras que possam ter interesses em comum. No Brasil, o site de relacionamentos Orkut é o exemplo mais conhecido de comunidade virtual. Desde que foi ao ar pela primeira vez, em 2004, o site vem moldando de maneira inovadora o comportamento do “internauta” brasileiro. Em 2003, antes do seu lançamento, tudo o que a internet tinha a oferecer como ferramentas eram as salas de bate-papo, os fóruns de discussão, os e-mail´s, os sites, os diários virtuais (também conhecidos como blogs). O Orkut aparece então como uma alternativa, fornecendo uma possibilidade de interação a qualquer indivíduo que tivesse acesso à internet.

Uma das características marcantes do Orkut é o fato de o site privilegiar a interação entre seus usuários. Essa interação acontece quando o usuário começa a utilizar as ferramentas do site para criar o seu perfil pessoal e assim expor este perfil para que qualquer pessoa possa ver. O perfil tanto pode ser falso (tradução literal do termo em inglês fake, como é mais conhecido) ou ser fiel à identidade na vida real. O site disponibiliza toda uma gama de recursos disponíveis aos seus usuários, de maneira que os mesmos criem sua identidade virtual e elaborem também representações sociais de acordo com seus interesses e objetivos na rede. Esta identidade virtual, o perfil, corresponde à sua representação social dentro do site e nas demais comunidades virtuais de que esteja participando.

sombra2Sob a ótica da Psicologia Analítica, este perfil criado pode ser analisado, mais especificamente utilizando-se os conceitos de sombra e persona. Calluf (1969) diz que a persona é o que mostramos por fora. Ela corresponde à identidade e desempenho de papéis socialmente atribuídos ao indivíduo. Já a sombra é o arquétipo associado às virtudes e defeitos de caráter ocultos para o próprio indivíduo.

Mas afinal, o que são representações sociais? Representações sociais são fatos significativos que estão intimamente ligados a cada sujeito, cada indivíduo. São elas que permitem que as pessoas estabeleçam comunicação e encontrem sua identidade, desenvolvendo assim o sentimento de pertencimento a um grupo sócio-cultural. Desta forma, o perfil do “orkuteiro” poder ser considerado uma forma de se representar socialmente num meio, numa comunidade (ainda que virtual). As representações sociais constituem uma forma de mediação entre a identidade do sujeito e o ambiente no qual ele se encontra inserido.

É preciso, no entanto, prestar atenção em certos detalhes. Nos sites de relacionamento, como o Orkut, existe a possibilidade do sujeito se “re-inventar”, criando uma representação social paralela de sua vida, que pode ser a mais idealizada possível, mas também ser distante da frustração e do marasmo da vida real. Por perfil idealizado, aponto como sendo a representação virtual que o sujeito faz de si mesmo, exibindo uma aparência que seja atraente aos olhos dos visitantes e que forneça conteúdo para saciar a curiosidade de outros usuários da rede. O usuário pode agregar-se a comunidades de livros que nunca leu, lugares que nunca visitou ou comportamentos que gostaria de ter. É preciso “vender” a imagem, pois as pessoas irão “comprar” apenas os mais cultos, os mais populares, os mais “viajados”, os mais bonitos.

sombra3Quando o usuário cria um perfil idealizado, sem defeitos ou pontos negativos, permite que o ego se identifique mais com esta persona “virtual”, já que não existe conteúdo para ser segregado e enviado à sombra. Desta forma, o perfil que o sujeito cria no Orkut pode se afastar parcial ou até completamente de sua real personalidade na vida real, criando então uma representação incompleta, composta apenas por aquilo que o indivíduo quer mostrar ao mundo e não ao que ele é de verdade.

Vivemos hoje de forma exagerada este culto a sociabilidade, uma celebração do “sujeito popular”. O perfil mais “badalado” acaba por romper com o padrão mais individualista e isolacionista que a modernidade impôs, retomando a exposição como forma de suprir uma necessidade de se comunicar e se relacionar.

Fábio Fischer de Andrade – fabio_psi@hotmail.com
CRP 06/93375

REFERÊNCIAS:

ANDRADE, Fabio Fischer. Orkut e Representações Sociais: Uma análise sob a ótica junguiana. Fábio Fischer de Andrade – Santos: [s.n], 2008. 92p. (Monografia) Curso de Psicologia. Universidade Católica de Santos)

ASSIS, Ana Borges; ROJO, Marina Luiza; DIAS, Cláudia Latorre Fortes.
A ciberidentidade no Orkut: Aspectos contextuais. 2006. Disponível em http://www.cibersociedad.net/congres2006/gts/comunicacio.php?id=330&llengua=es

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos.1º Ed. Rio de Janeiro: Zahar. 2004. 190p.

CALLUF, Emir. Sonhos, Complexos e Personalidade. 1a. ed. São Paulo : Mestre Jou. 1969. 302p.

DAL BELLO, Cíntia. Espectros Virtuais: A construção de corpos-sígnicos em comunidades virtuais de relacionamento. Disponível em: .

JUNG, Carl Gustav. Fundamentos de Psicologia Analítica – As conferências de Tavistock. 1º. ed. Petrópolis: Vozes. 1972. 239p.

MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social. 2ºed. Petrópolis: Vozes. 2004. 404p.

June 25, 2009 Posted by Eduardo Honorato | Psicologia | | 2 Comments

De onde vem a homofobia – Por Denise Deschamps

homofobia_crime1Cabe na análise deste tipo de comportamento averiguar o contexto no qual se manifesta e, além disso, investigar os conflitos intrapesssoais que a atitude possa ocultar

Refletir sobre a questão da homofobia requer sempre certa contextualização cultural. O comportamento surge como manifestação individual, mas tem seus instituintes fortemente assentados na cultura onde se inscreve, assim como a manifestação de outros comportamentos, também regulados por um intricado sistema de normas sociais.

Em nossa cultura – que supomos ser de base heteronormativa e heterocêntrica –, a questão geralmente se apresenta de maneira bastante evidenciada. Pais vigiam seus filhos desde muito cedo, observando atitudes que possam apontar uma possível homoafetividade e não hesitam, inclusive, em reprimir algumas manifestações de afeto e outras próprias do desenvolvimento psicossexual de todo sujeito em formação. Dentro dessas características, agregadas a uma cultura conceituada por Gregory Zilboorg como falocêntrica, ocorre extrema vigilância sobre comportamentos identificados como indicadores de homossexualidade. Serão muito mais atacados aqueles que dizem respeito ao gênero masculino, aos meninos em formação, sendo que, nesse aspecto, as identificações de gênero para as mulheres são um pouco mais flexíveis. Torna-se importante, neste momento, isolar alguns conceitos que hoje em estudo mostram diferenciações *:

- sexo biológico;
- identidade sexual – Também conhecida por identidade de gênero;
- papéis sexuais – Também conhecidos por expressão de gênero;
- orientação sexual – Simplificação da expressão e orientação sexual do desejo;
- comportamento sexual – Não corresponde necessariamente à orientação sexual do desejo;
- prática sexual – Diz respeito ao ato sexual propriamente.

Hoje é consenso que essas diferenciações, ao se abordar a homossexualidade, sejam algo de suma importância. Por isso devem ser consideradas quando um profissional do campo psi é chamado para lidar com essa questão, seja teoricamente ou na prática clínica. E por qual motivo isso nos interessa? O foco de nossa análise ficará mais bem delimitado olhando-se a partir dessas possíveis manifestações. Um sujeito homoafetivo poderá não apresentar para seu meio social nenhum indicador de sua orientação sexual, mesmo que a exerça em sua prática sexual, portanto não apresentando nenhuma manifestação quanto à identidade de gênero ou papel sexual que sejam diferentes das manifestações aceitas para o seu sexo biológico. Outras vezes esse campo se confunde e o sujeito poderá dar-se conta de sua orientação sexual e, no entanto, manter a prática sexual e o comportamento sexual ligados a outra orientação, heterossexual. Esse tipo de atitude, via de regra, levará esse sujeito a grande fragmentação e vivência de intenso sofrimento. A trajetória até aí não é das mais simples e diz respeito àquilo que denominamos como homofobia internalizada.

Em alguns casos, a homofobia internalizada poderá ganhar contornos de uma manifestação projetiva e apresentar-se ao mundo externo como perseguição ao objeto temido. Nesta situação o sujeito desenvolve toda uma estratégia de perseguição à homossexualidade. Isto é muito observado em grupos organizados, tais como os de cunho religioso ou mesmo militares, como pudemos acompanhar recentemente pelos noticiários que mostraram a perseguição sofrida pelos militares Laci Marinho de Araújo e seu companheiro Fernando Alcântara de Figueiredo. Ao assumirem seu relacionamento, ambos atraíram para si toda uma estratégia punitiva por parte da instituição à qual pertencem.

Sem o aval da Psicanálise
A transexualidade e o travestismo exigem capítulo à parte, mas que para o que abordaremos aqui não necessariamente será preciso elucidar as diferenciações, porque pensamos que a homofobia se caracteriza pela dificuldade em lidar com tudo que não seja heterossexual, no sentido biológico que caracterizaria essa definição.

O campo psi tem sido, então, solicitado para legitimar ou não a questão do “desvio” em relação à homossexualidade. Embora se acuse a Psicanálise freudiana de fornecer embasamento para essa prática, isso na verdade mostra um desconhecimento quanto ao que seu fundador, Sigmund Freud, pôde postular sobre o tema ainda em pleno desenvolvimento de sua teoria, quando retira da questão homoafetiva qualquer noção de desvio e a coloca como uma das possibilidades esperadas da corrente da libido. Isto fica bastante claro na famosa carta resposta “À uma mãe americana”, que o consultou a respeito da possível homossexualidade de seu filho. Disse Freud:

“O homossexualismo (leia-se hoje como homossexualidade) não é vício nem degradação. Não pode ser classificado como doença”

Toda teoria que envolve o Complexo de Édipo, elaborada finalmente por Freud, aponta para aquilo que será chamado de Édipo Completo e que investe nas duas direções (figuras parentais masculinas e femininas), até que fatores diversos e ainda não totalmente entendidos apontem para a orientação que ficará como predominante, porém nunca totalmente excludente da outra. Freud partiu da crença em uma bissexualidade constitucional, ou seja, por “natureza” seríamos todos originalmente bissexuais. Pensamos que seja justamente a forma de lidar com essa constituição e suas manifestações na infância que determinarão também os comportamentos homofóbicos na vida adulta, respaldados na dificuldade em lidar com seus componentes homoafetivos recalcados.

Já em 1970 a American Pshycology Association deixou de considerar a homossexualidade como doença e perversão. E o nosso Conselho Federal de Medicina, desde 1985, assim como a Organização Mundial de Saúde, a partir de 1993, excluíram do quadro de patologias a homossexualidade. No Brasil o Conselho Federal de Psicologia seguiu o exemplo em 1999 (nº01/99) e contemplou definitivamente a questão no Código de Ética do Profissional em Psicologia, aprovado em agosto de 2005. Todas essas resoluções são importantes no sentido de retirar das mãos do campo psi, aquilo que a Dra. Hevelyn Hoocker, conceituada psicológa norte-americana dos anos 1940, havia apontado como os “cães de guarda da moral dominante”, por medicar a prática homoafetiva e substituir toda perseguição policial e religiosa perpetrada nos séculos anteriores.

Em prol da diversidade humana
Pensar na diversidade sexual como algo que faz parte da nossa humanidade é combater toda e qualquer prática da homofobia no meio social, prática essa muitas vezes exercida de forma velada, mas em algumas situações peculiares expressa com extrema violência e perseguição. Partimos do fato de que a homofobia é um mal que atinge tanto os heterossexuais quanto os homossexuais, que a exercerão contra seu próprio organismo, muitas vezes estabelecendo um quadro de profunda depressão que alimenta a alta taxa de suicídios existente dentro desse segmento da população.

Parafraseando uma campanha feita alguns anos atrás a respeito do racismo, podemos perguntar: “– Onde você coloca sua homofobia?”. Pensamos que a resposta mais sensata seria: “Em lugar algum, jogo fora”.
Porém, é certo que não podemos tratar a questão sem retirá-la do seu lugar de “não-dito”. É preciso trazer para o debate suas manifestações, onde isso puder ser colocado, abrir janelas e portas, lançar luz à questão. É inegável que este é um traço de nossa cultura brasileira machista. Por conta disso, nenhum de nós encontra-se imune a ela, não importa se sejamos hetero ou homossexuais, pois o comportamento homofóbico poderá se apresentar sem grandes diferenciações e ser corrosivo da mesma forma, não importando em quem esteja instalado este traço. São as graves conseqüências deste tipo de atitude que ensejam pensar na proposta de criminalizar todo e qualquer tipo de práticas homofóbicas, como já está previsto no projeto de lei (PL) 122 que tramita no Congresso. Da mesma forma, no âmbito de todo conhecimento psi, devemos tratá-las com a compreensão de serem manifestação de um conflito psíquico.
Pelas madrugadas dos grandes centros urbanos brasileiros muita violência é produzida em torno da homossexualidade. Algumas dessas ações ganham o noticiário, mas é comum serem tratadas com certa complacência por grande parte da população, que se apóia nos componentes homofóbicos inscritos em nossa cultura heterocêntrica. Esse tipo de situação precisa ser questionado e combatido com informação e formação. O campo psi não poderá fugir a esse debate e os profissionais que se pronunciam a respeito dessa questão não podem perder de vista seu dever ético, devendo ficar atentos a tudo que até agora o universo científico já produziu com estudos sobre a sexualidade humana. Atualmente os movimentos de afirmação homossexual propõem, de maneira combativa, a localização da “questão homossexual” no campo dos direitos humanos.

Identidade de gênero
Para a Psicanálise a questão da construção dessas identificações (masculina, feminina), assim como os investimentos objetais (homo ou heterossexuais) passam necessariamente por uma leitura do Édipo, pelo qual se entende que, ao vivenciá-lo, tanto meninos quanto as meninas produzirão caminhos para essas escolhas. Como já foi dito aqui anteriormente, nos dias de hoje se fala em um Édipo Completo, nada parecido com o que popularmente se sabe sobre esse complexo e que é erroneamente propagado em revistas e publicações reducionistas. O Édipo, segundo o método apontado pela teoria freudiana, seria um fenômeno universal, aconteceria em todo ser humano inscrito em qualquer cultura, tendo no tabu do incesto seu principal postulado.

Meninos e meninas em nossa cultura têm como primeiro objeto de amor aquilo que formará sua matriz das relações, a mãe. Partem, então, ambos, tanto menino quanto menina, de um mesmo ponto. Teríamos em seguida o segundo apontamento fundamental do método psicanalítico, que seria o Complexo de Castração, que resolverá o Édipo do menino e, para a menina, o lançará nele, ou seja, na situação triangular de investimento. Nos dois casos, meninos e meninas, os investimentos e identificações serão feitos nos dois sentidos, formando uma amálgama difícil de separar, mas de qualquer maneira, já poderemos observar na saída do Édipo e entrada no chamado período de latência uma predominância tanto para a identificação de gênero quanto para o investimento no objeto sexual. Mas então virá o período de latência, no qual há certa retração da libido de objeto, que só retornará com força, então, com a primazia do genital, na adolescência.

Durante o período de latência as relações são fortemente marcadas pelas identificações de gênero, formando aquilo que conhecemos como os famosos “clube do Bolinha” e “Clube da Luluzinha”. Existirá, inclusive, certa hostilidade entre gêneros. Vejam, que abordada dessa maneira mais completa, o Complexo de Édipo não deixa margem para servir de respaldo para quaisquer justificativas de patologização de sua existência. A diversidade sexual é amplamente amparada pela teoria psicanalítica. Sabemos bem que o que determina uma sexualidade hetero ou homoafetiva ainda não está totalmente esclarecido, e durante a fase do Complexo de Édipo isso encontraria seu principal objeto de investimento, nunca, porém, totalmente excludente.

A homofobia hoje é como uma “peste emocional” que deve ser combatida de todas as formas, sob pena de continuarmos construindo uma sociedade apoiada em valores normativos excludentes, não acolhendo a diversidade que fala do humano, de tudo que se move em direção a uma construção do diferente como parte do que forma o tecido social. Não cabe a nenhuma corrente científica fornecer argumentação para esse equívoco. Os grupos religiosos já constroem argumentações suficientes para nos horrorizarmos com essa prática, sendo a maioria de suas argumentações totalmente destituídas de qualquer valor, mesmo que olhemos pela questão moral. Hoje sabemos que devemos ter como orientadora a construção de algo que passe por uma ética, e nunca pela moralidade, que tende a se apoiar em crenças dominantes, defendendo o que há de mais retrógrado nas instituições sociais.

1- Artigo publicado na Revista Psiquê Cinência e Vida edição 32
2 – Fonte: Análisis de conceptos abstractos e práticas concretas de la sexualidad para la psicologia contemporánea. Mario Chimazurra y Veriano Terto – Ed. Madrid 2006.

June 20, 2009 Posted by Eduardo Honorato | Psicologia | | 3 Comments

Cinematerapia

Depois de alguns bons meses de pesquisa e muito trabalho…
Depois de muitos filmes assistidos…
Depois de muitos insights….
Depois de muitos emails enviados…
Sim….
Ele ficou pronto! “Cinematerapia: Entendendo Conflitos”
Lançamento do nosso Livro no Rio de Janeiro, na próxima 3-feira, na sede da Editora Multifoco.
Maiores informações no E-flyer!
[s]

Convite-Cinematerapia_Web

Vendas online em alguns dias, no site da Editora: http://www.editoramultifoco.com.br

June 10, 2009 Posted by Eduardo Honorato | Cinema-TV | | No Comments Yet

Mais do mundo digital – Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

2034811099_3eb0b1b5dfCada vez mais estamos em pixels, megabytes, TERAbytes, conexões, provedores, digitalização e virtualidade. Estamos vivenciando um momento que ficará na história, como a transição de um período para outro. Algo como a eletricidade, automóvel e grandes momentos de criação. Porém, desta vez todos são autores e inventores, numa interação frenética nunca antes vista.

Ao longo dos anos vímos idéias darem muito certo, e depois caírem em desuso. Muito mais rápido do que o Vinil foi substituído pelo CD. Vimos empresas criadas, explodirem e falirem, em um piscar de olhos, nada comparado com a troca do VHS pelo DVD. Tudo no virtual está muito intenso, muito rápido, muito pra “ontem”. É um reflexo dessa nossa sociedade quase virtualizada. Wohooo…vivemos em um momento histórico

Vamos tentar entender alguns destes fenômenos interessantes, e alguns de seus produtos. Reparem que, futuramente, o termo histórico “Era” será também alterado, contando apenas alguns meses ou anos….

- A Era do Mirc – Tivemos algumas tentativas de redes de conversas, para substituírem os famosos “145” ou “Disk-Amigos” (que voltaram hoje). O mirc proporcionava uma interação “rápida”, anônima e contagiante. As conexões eram ruins demais, em velocidades que hoje rimos só de lembrar. O barulho do modem fazendo “tchuuuuuuuuu-tchuuuuuuuuuuuuuuuu-tchuuuuuuuuuuuuuu” vai ser uma onomatopéia para píadas. Por anos o Mirc foi a sensação, até que foi caindo em desuso. Perdeu a graça, e muito se deve também a brigas políticas de grupos já virtuais. (juramos não entrarmos em uma das primeiras guerras de Ego do virtual. Nao devemos falar de uma guerra ainda não cicatrizada….)

A necessidade de interação continua, e a famosa “florzinha” do ICQ apareceu. Foi uma sensação. Ao invés do anonimato e das fantasias do Mirc, tinhamos nome e número de UIN. Era como se ter um número de “celular”. Super ultra cool. A florzinha foi regada, mas, colocaram veneno no seu adubo. O MSN avassalou o mundo virtual e tomou conta. Interatividade total, depois com vídeo, com emoticons, com tudo que tínhamos direito.

- A Era do Orkut – Depois vem essa possibilidade mais estática. A interação direta e rápida de antes estava meio sem graça ou não suficiente. O orkut trouxe a possibilidade de juntar distancias em tempo não real, trocar informações, conhecer pessoas, debater sobre assuntos, ver fotos de parentes. Nossa…foi um dos primeiros passos para a vida virtual estática constante. Paralelamente os mundos virtuais mais interativos, tridimensionais, como o Second Life, corriam, mas ainda muito em um âmbito “geek”. Com o tempo muito do Real transpassou pro Virtual – normal – e o Orkut, invadido pelos brasileiros, entrou na rota do crime e da perversão. Palco perfeito para todas as parafilias, em uma retirada de um superego social nunca vista antes. Um faroeste digital, que será sempre lembrado como o período da farra, que teve (esperamos) um fim.

- A Era dos Blogs, Flogs, Trogls, Plabs, e o narcisismo humano recebeu seu primeiro adubo. Falar de sí, mostrar seu trabalho, colocar seus pensamentos. Todos tiveram a oportunidade de se exibir mais e fazer o que quiser. A criatividade humana foi instigada bastante, não limitando mais aos meios tradicionais. T

- A Era do Facebook (ainda rolando) – Como o Orkut virou faroeste bang bang, com seus fakes e suas características peculiares, muitos se refugiaram no então Facebook. Não tão interativo coletivamente, mas em uma forma mais de vitrine. Você interaje com tudo e com todos, mas se exibindo ou falando de você. Fala o que pensa, faz testes sobre você, informa a todos sobre o seu narcisismo. Os demais brincam e se divertem com isso também. É uma troca narcísica de massagem de egos. Pura diversão!!!!

- A Era do Twitter – Os mais “cools” e “geeks” bombam no Twitter, que agora também virou “Celebridade”. Sim, toda celebridade antenada tem que estar Twittando o tempo todo. Uns até demais. Já temos fakes, que divertem esse ambiente ainda seguro e divertido. Os humoristas fazem a festa e ler durante o dia é como ter acesso a piadas curtas para alegrar o seu dia. Este ainda faz a diversão dos funcionários de empresas, pois é mais rápido que o Orkut, menos trabalhoso que o Facebook, e nao está barrado, como o Orkut e o MSN. “Interaja com algumas celebridades e esteja por dentro das fofocas e coisas interessantes”. Essa é a proposta simples e do momento.

- A Era do Youtube – Não podemos esquecer do Youtube, que há tempos resiste e mostrou as previsões de que a TV do futuro será virtual. Muito ainda temos a desenvolver, mas esse é o caminho. É também a prova da pulsão humana de curiosidade, sobre o Outro. É a mola que impulsiona os reality tvs. Todo mundo tem que se mostrar e ser visto. Nossas pulsões mais escópicas precisam ser satisfeitas, além das narcísicas. É claro que aparece de “tudo”, tanto bom, quanto ruim…

Essa oportunidade, nos remota a outras postagens sobre televisão e psicologia, e relembramos que “pra ser produto, tem que ter Ego”. Talento, bom senso e algumas outras características perderam alguns parâmetros. Coisas que antes eram cafonas, viraram modernas da noite para o dia. O cool de ontem é o over de amanhã. O in de ontem é out hoje. Rápido demais.

Continuemos observando, interagindo, contribuindo, criticando, melhorando, controlando e curtindo essa fase histórica, que daqui a alguns séculos, será uma das matérias interessantes de história, como lêmos muito nos nossos tempos de escola.

Há quem nomeie nossa época, a atualidade, como a era da conectividade, sendo a Internet um dos seus fenômenos, não podemos deixar de pensar nos outros dispositivos móveis, como a telefonia celular, que mudou completamente as características de contato, agora sempre possível, presente. A cada dia mais esses dispositivos vão se juntando em um só, já podemos, por exemplo, acessar e-mails por aparelhos que também são de telefonia. Não estamos nem cogitando sobre teses futurísticas que já se mostram em andamento, como a questão holográfica, ainda em pesquisa.

Todas as inovações tecnológicas não surgem apenas das mentes de algum inventor maluco, tipo Professor Pardal, surgem dentro de um contexto, um tempo histórico, que fala dos desejos desse sujeito e portanto também um ser da cultura. Esse homem que quebra hoje, ainda seguindo no rastro de alguns pesquisadores, com o grande paradigma do individualismo como a meta social. O tempo rápido também permeia a forma desse homem no mundo investido de carga, desejo, libido. O tempo gasto em atos é cada vez mais voraz, o sujeito sente: falta de tempo.

Solicitado por inúmeros estímulos concomitantes, responde ágil, se aliena da reflexão, solicitado também, por outro lado, a emitir estímulos ao mundo, da mesma forma, na direção da conexão, distante e ausente da representação(pensamento/idéia) carregada pela energia de investimento, afeto.

Muitos avanços tecnológicos como vimos, dividindo também o mundo em quem a eles tem acesso e outros que nem sabem que existem. Exclusão digital tem sido tema de grande debate, mas isso mereceria todo um texto, aqui, por hora, fica só citado.

Sobrevivência desse ego do homem moderno, precisa e deseja exposição, a Internet está aí, cômica ou trágica como documentação dessa passagem, dessa mudança que operamos e sofremos na ligação com o tal mundo externo, real, presencial, atual.

Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps.

June 6, 2009 Posted by Eduardo Honorato | Psicologia | | 1 Comment

Susan Boyle – E o Show de Truman vai começar! – Por Eduardo J. S. honorato e Denise Deschamps

show-de-truman03Quando sempre criticamos que os profissionais de Psicologia precisam ter mais espaço nas organizações midiáticas, não estamos brincando ou procurando questões mercadológicas, mas sim, pq as situações falam por si só.

Os conhecimentos de Psicologia vêm sendo ignorados em algumas questões e temos que enfatizar que há sim necessidade de maiores controles em certos aspectos da televisão brasileira. Temos um pacto de não contribuir com a baixaria na televisão, e isso incluí e não ficamos calados como espectadores.

Situação 1 – Maísa

Em outubro, tanto aqui no Blog como na comunidade do Orkut, debatíamos sobre as questões que envolviam esta menina, e meses depois os problemas aparecem.

http://eduhonorato.wordpress.com/2009/06/02/ainda-sobre-maisa/

http://www.orkut.com.br/CommMsgs.aspx?cmm=46802&tid=5281113863294085528&kw=maysa

http://www.orkut.com.br/CommMsgs.aspx?cmm=46802&tid=5337831230015072664&kw=maysa

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=46802&tid=5261764679143319960&kw=maysa

A questão está tomando proporções maiores agora, depois que a situação inicial já aconteceu. Poderia ter sido evitada.

Situação 2 – Produtos na mídia

Falamos no Blog sobre a questão se de tornar um produto midiático.

Aí, suge o fenômeno midiático Susan Boyle.

Se você está em outro plano e não a conhece, esse aqui é o vídeo do “Show de Calouros” mais famoso do mundo, dos criadores do American Idol, Pop Idol e todas as versões “ídolos” pelo mundo. Imaginem a grandiosidade desse evento:

Copie e cole no navegador:

http://www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo

Assista aos vídeos dela e se deixe mesmo invair, no sentido que propomos da Cinematerapia (www.cinematerapia.psc.br). Assista aos demais vídeos dela e veja o que foi dito: “A bruxa que canta”. Ela acendeu um pouco em qualquer fantasia e sonho de qualquer pessoa. Parecia uma fábula acontecendo pelo mundo digital.

Ela foi citada em palestras, debates, seminários de motivação, programas de talk show. Foi um ponto positivo nessa mídia. Para o show, foi o que faltava e precisavam. Desde o início eram acusados de produzir nomes sem talentos, muito comerciais, ou alegações de fraude. Era a prova de que o show transformava um patinho feio em um cisne musical. A prova de que existiam talentos espalhados pelo mundo.

Semana após semana o patinho feio da competição ganhou o mundo. Foi acessada, avaliada, revirada, revestida, embrulhada, desembrulhada…e todas as ações possíveis que a mídia mundial pode fazer. Virou da noite pro dia em um dos produtos mais consumidos virtualmente. Passou para a televisão e atravessou continentes. Tudo numa velocidade tão rápida quanto a troca de informações pela Internet.

Aí nos perguntamos se toda e qualquer pessoa está psicologicamente preparada para ser esse produto…

Escrevemos sobre isso em Janeiro desse ano:

http://eduhonorato.wordpress.com/2009/01/31/prazer-eu-sou-um-produto-–-quer-me-comprar/

A questão é que ninguém se perguntou ou pensou se Susan Boyle estava preparada para assumir esse peso todo ou se estava mentalmente apta a fazer isso.

Invadimos sua privacidade na cidade natal. A fizemos dar declarações sobre sua vida privada que talvez não tivesse conhecimento sobre os impactos. A fizemos se expor como se fosse a pessoa mais desejada do mundo. Tiramos esta senhora tímida e recatada de sua poltrona a frente da televisão, tomando seu chá, para os palcos de hollywood e teatros do mundo.

Em momento algum se parou para pensar que as coisas poderiam ser diferentes. Susan deu indícios de não estar se adaptando bem no início, quando atacou os jurados nas vésperas da final. (fonte internet). Sites diziam que deixaria o programa, pois não aguentava a pressão.

E mesmo assim a mídia continuou até que para a surpresa de todos…Susan Perde. Mesmo assim, dá um show de carisma, que mais contido poderia explodir dentro do rosto. Poucas horas depois, é internada em estado de “estafa” em uma clínica inglesa.

http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1179530-7085,00.html

Depois dos estragos feitos, somos informados sobre problemas de aprendizagem, questões psicológicas muito importantes. Contribuímos para que uma pessoa fosse empurrada ao limite de seu limite. Percebemos aos poucos qu teríamos algo muito maior….mas nada foi feito. Os produtores prometem mudanças e melhorias no formato, e Susan continua com seu breakdown na clínica, como um produto que cumpriu seu papel nesse programa, que só retorna na próxima temporada.

E continuemos brincando de diretores de cinema, controlando vidas em reality shows como se fossem personagens de cinema.

E continuemos idolatrando situações de extrema violência psiquíca e esperando as consequências para “fingirmos” que não sabíamos que iria acontecer.

Hoje, aqui no Brasil, o Conselho Federal de Psicologia tenta trazer para o debate as questões que envolvem a mídia, esse debate já ganhou seminários, artigos, pesquisas, pronunciamentos etc, mas naquilo que fala das regras e ética que rege o fenômeno no mundo real, pouco ou nada se modificou. Pessoas viram produto da forma mais banal que podemos encontrar meios para fazer isso, com a participação animada de uma platéia claque. Como costumam dizer, extraem tudo até virar bagaço, podemos citar vários exemplos ao longo de anos, e muitos deles com suas conseqüências exploradas pela própria mídia como ainda uma possibilidade final de uso daquele produto.

Dentro desses aspectos nos caberia perguntar: que tipo de sociedade estamos construindo e a que esejamos como lugar onde podemos viver como sujeitos do desejo?

Susan Boyle não agüenta a pressão, não da fama e da popularidade, mas aquilo que podemos fantasiar, em uma realidade psíquica possível, como uma repetição história em desenvolvimento, como a um bebê vítima de uma mãe sádica que segura e ampara seu bebê para logo em seguida jogá-lo no berço, naquilo que de mais psicotizante podemos entender como pressupostos teóricos. Susan também sucumbe não ao 2º lugar que a vitima, mas por já perceber no balanço dos braços, o desamparo e abandono a que será lançada, ou ainda, ao movimento cruel que sucede ao jogar o bebê de volta ao berço, ao ataque e ódio gritado em silêncio.

Ainda poderemos supor que será acusada, porque afinal foi ela que procurou o programa, o sucesso, a saída do anonimato, como de alguma maneira cada um de nós faz, nesse mundo do espetáculo cujo anonimato e a invisibilidade tem sido quase que uma chaga que nos atinge em despersonalização e homogeneidade. Cada um de nós em nossa porção Boyle, lutando em águas bravias de apagamento do desejo enquanto possibilidade de realização do ser. Susan tentou nos dar um presente com sua voz, mas vimos nela o grande produto entre o talento incomum e o cômico que hoje se constitui aquele que fora dos padrões exigidos ainda pensa ter direito a ocupar um lugar de destaque nesse planeta midiático.

São fatos da vida contemporânea que nos convidam a pensar, talvez até mais do que no que jogamos em nossos rios e mares, porque talvez antes que eles estejam imprestáveis, esse sujeito que deles depende já tenha desaparecido enquanto possibilidade de vida plena, de ser no mundo.

Mas podemos ainda continuar pensando que a psicologia nada tem a dizer a respeito disso tudo e sigamos, afinal: o show tem que continuar!

Eduardo J. S. honorato e Denise Deschamps

Ps: E se voce acha que foi o jurado Simon Cowel que coordenou tudo, você precisa olhar direito para a Lua e ver o verdadeiro diretos.

June 3, 2009 Posted by Eduardo Honorato | Cinema-TV | | 1 Comment

Ainda sobre Maisa….

Diante dos últimos acontecimentos, só nos resta resgatar um post de outubro do ano passado…

Maisa….
http://eduhonorato.wordpress.com/2008/10/27/maysa-–-a-menina-prodigio-por-eduardo-j-s-honorato/

Assista também a um dos vídeos que deram origem a polêmica…

Talvez se profissionais SÈRIOS estivessem engajados nessas questões midiáticas, os “estragos” seriam menores….

Eduardo J. S. Honorato

June 2, 2009 Posted by Eduardo Honorato | Cinema-TV | | 3 Comments