Sobre Michael – Vida, Morte e Show – Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps.
E o espetáculo tem que continuar…
Morre um ícone e nasce um mito….
Apagam-se as luzes em um fim trágico, morre um ícone da música que marcou algumas gerações, apresentações alegres, melancólicas, ousadas, bizarras, as vezes convite pra pensar um mundo melhor. Um mundo que olhe para o “estranho” de cada um de nós sem tanto espanto e riso.
Sabemos de Michael uma criança sofrida, explorada, abusada que viu seus sonhos e seu grande talento serem triturados pela máquina do dinheiro e do espetáculo. Podemos aqui dar uma pausa e pensar no filme “The Fever” para nos inspirar a pensar o mundo, pensar no pequeno Michael nesse mundo. O valor de cada produto, as vidas envolvidas na confecção de cada um, no Deus da atualidade, o Senhor Dinheiro.
Tudo na vida dele foi alimento para a mídia e sua morte não poderia ser diferente. Vai deixar um legado de “Mito” e de assuntos para os mais variados tipos de programas…..pelas próximas décadas, afinal, para isso que mitos também servem nos dias de hoje – produtos.
Há algum tempo falamos aqui em “tornar-se produto” em como isso exige “ego resiliência”. Por outro lado, temos ainda um “medo” quando as coisas aparecem na mídia. Parece-nos que nada pode ser dito ou feito, pois está tudo “certo”.
Michael será lembrado pela suas qualidades e excentricidades, assim como são hoje Elvis Presley, Janes Joplin, Jimi Hendrix entre tantos outros. Será também lembrado como gênio, talento musical admirável. Sim, porque MJ mudou muita coisa pelo mundo, em diversas áreas, mesmo não sendo inventor ou intelectual.
Conseguiu mover multidões maiores que quaisquer políticos. Conseguiu “convencer” bilhões de fãs a seguirem sua música, seu estilo, suas mensagens. Foi um convincente articulador de grupo, talvez nem se dando conta disso. Criou seu próprio mundo mágico e vendeu ingressos pelo mundo todo. Ele nos permitiu que vivenciássemos sua “vida”, suas fantasias. Nesse mundo mágico fomos confrontados com tudo aquilo que fala mais profundamente do humano em cada um de nós, essa mistura entre ideais e conteúdos perversos, sublime ação e o obscuro de nossas pulsões.
Difícil classificar esse ídolo pop, entre a criança com voz de anjo e o “adulto” com cara de menino que dançava com os zumbis, nos trazendo uma metáfora dos tempos modernos, talvez como o outro gênio, este no cinema, Charles Chaplin. Trabalhava brincando e talvez brincasse trabalhando, entre o lúdico e o perverso que constrói humanidades naquilo que é possível. Entender as possíveis polêmicas que giram em torno da sua suposta pedofilia, ver o filme “O Lenhador”, quem sabe nos ajude, a pensar nisso a partir do nosso próprio estranho.
Sem legitimar a pedofilia, porque isso não é possível, pelo ato dela que invade ao direito a um desenvolvimento psicossexual garantido por um adulto interditado e interditor, que possibilitará o simbólico tão caro à construção do que há de civilização em nossos possíveis vínculos.
Já faz um tempo, o psicanalista Contardo Calligaris escreveu sobre Michael, pontuou com muita pertinência que o MJ acusado de pedofilia não era um adulto, mas sim, uma “criança”. Sabiamente, em 2007, ele escreveu:
“E tudo indica que, nas festinhas de dormir todos juntos na Terra do Nunca, não se trata de pedofilia. Deviam acontecer coisas impróprias: toque aqui, que toco lá, mostre lá, que mostro aqui, iiiii!, vamos dar beijo de língua. Ou seja, entre os lençóis de Jackson, devia acontecer o que pode acontecer quando crianças se amontoam numa cama sem que haja adultos por perto.
Pelo que sabemos, Michael Jackson não é um pedófilo, mas uma criança que eventualmente brinca com o faz-pipi (o seu e o dos amiguinhos).”
Assistimos maravilhados a uma criança milionária, sem “freios”, a fazer o que queria, nitidamente pedindo ajuda. Milhões de dólares envolvidos, falsos “auxiliares”, muitas drogas “lícitas” sendo traficadas. Tudo virou sinônimo de notícias e de assunto.
Endeusado ou acusado, ali a expor feridas que nunca cicatrizavam. Ele mesmo declarou ter tido uma infância abusiva, neutralizada, anulada. No que agora talvez fosse definido como trabalho escravo infantil. Mesmo não se comparando as condições mais invasivas, como de algumas de nossas crianças, os danos psíquicos de qualquer exploração nessa fase, aparecem. Não há como “banalizar” a forma como a exploração está sendo feita. Até onde vivenciar um talento ou explorá-lo pode ser definido com precisão? Talvez a morte de Michael nos deixe mais do nunca às voltas com essas questões. Talvez Susan Boyle seja outro “analisador” importante nesses nossos tempos espetaculares (escrevemos aqui no Blog sobre esse caso), talvez Mozart o tenha sido em outra época(ver o filme “Amadeus”). Quando decidiu ser pai, optou por ter “amiguinhos”, como uma criança de 7 anos que brinca de casinha. Aos filhos deu a máxima proteção contra a mídia, escondendo seus rostos. Não queria nenhuma exposição, nem mínima deles.
Todos sabiam das acusações que pesavam contra ele, que remetiam ao fato de ser ele um abusador e dos imensos acordos milionários que foram feitos em torno disso. Todos sabiam da sua infância abusada e sofrida, com muitas agressões. Todos sabiam do seu exagero de plásticas e deformação….e possível distorção de imagem “corporal”. Todos sabiam dos seus problemas da pele e suposta mudança de “cor”. Mas ele ainda atraía multidões e era um ser “acima dos normais”. Talvez porque escancarasse para nós essa busca contemporânea de uma uniformização de valores, uma hegemonia que atravessa até o estado emocional que devemos almejar, como o Soma de Huxley em seu “Admirável Mundo Novo”. Ou ainda como os seis personagens de Luigi Pirandello, em busca de um autor. Quem será o autor do texto dessa contemporaneidade?
Todos foram pegos de surpresa na última semana com a morte de Michael Jackson. Quem leu na Internet, jurou que era um “hoax”, uma pegadinha. Quem ouviu nas rádios, achou que era alguma referência a programas de comédia. Quem viu na televisão talvez tenha acreditado mais fácilmente. Nós aqui fomos tomados de surpresa, incredulidade e choque.
Morre Michael, o homem Nirvana, e nesse momento, nasce o “Mito”. Sim…ele era famoso, era adorado e idolatrado. Era venerado e talvez um dos artistas mais completos que existiu. Mas até então, ele ainda era “humano”. Tinha carne e osso (há controvérsias), ainda era algo paupável, existente, e assim, dotado de defeitos.
Com a morte física, ocorre no âmbito social o que também ocorre no psíquico, no processo de elaboração de luto, proposto por Freud. Com o tempo, as boas “conexões” de mantém e algumas não tão boas, perdem o investimento libidinal.
Elvis e Janes talvez não tenham usufruído desse poder que a mídia moderna tem. Com a tecnologia, os espaços físicos foram diminuídos em sua importância, bem como questões temporais. Talvez tivessem tido impacto tão grande quanto Michael, se pudessem contar com esses recursos.
Mas MJ TINHA que ser diferente. Ele á “mais” especial, ele era mais “excêntrico”. E isso nos explica o motivo das imediatas desconfianças no mundo virtual e real, sobre sua morte. TEM que ter algo misterioso para que o mito seja maior ainda. Todos imaginam, ou sabem, ou desconfiam ou podem até mesmo, saber. O que importa é que um grande ícone, como JFK, Marilyn, Ladi Di e tantos outros, tem que ter uma morte misteriosa, que leva à perguntas para outras e outras gerações.
A mídia jamais deixará. Ele terá sua morte transformada em Reality Show. Tudo vai ser investigado, vasculhado, alertado. Câmeras de televisão 24h em todos os locais, todos os furos. Era a informação perfeita que faltava para alimentar muitos e muitos canais e programas, por SEMANAS. MJ, que ao longo de sua vida deu muita matéria para esses meios, não pode “ir assim” sem dar mais um pouco de lucro.
Já debatemos aqui sobre isso e em outras comunidades virtuais. Há uma linha pequena entre o saudável e o perverso, mesmo nas questões midiáticas. Há que se ter um “limite”.
Veremos jovens hoje declarando que queriam a vida “dele”, “ser ele”, “ter o sucesso dele”. Insistimos aqui na pergunta de qual preço foi pago para essa transformação em produto?
Apresentou ao longo de sua vida, significativos sintomas de quadros que necessitavam de auxílio psicológico e psiquiátrico. Centenas de cirurgiões plásticos, especialistas em todos os assuntos, já haviam declarado que ele havia “passado dos limites” e muitos chegaram a se negar a atendê-lo. Mas sempre tinha um “espertinho” querendo um pouquinho da fama dele, e para isso, se faz tudo. Assistimos todos calados a uma pessoa se deformar ao longo dos anos, verbalizando apenas “duas” mudanças em seu rosto desfigurado. Tudo muito banalizado.
Mas até nisso encontraremos alguma beleza, alguma denúncia e resistência ao banal de todos nós.
Essa é uma constatação, outra que podemos trazer, enquanto pergunta, será a de que talvez ele tivesse o direito de fazer com seu corpo, sua imagem, o palco mesmo de suas representações, no mais profundo e complexo “Teatro do Corpo”(MCDOUGALL, J.).
O corpo hoje talvez tenha mesmo ganhado uma possibilidade de demonstrar em si sua própria ausência, “desafetado”, ou ainda as tentativas de se rebelar contra a pasteurização do pulsional. Michael em sua angústia atuada nos deixa de legado essa questão sublinhada.
Mas, de qualquer forma nos perguntaremos se será que alguma organização ou união profissional, não poderia declarar publicamente e auxiliar nas questões plásticas. Vamos continuar permitindo que pessoas se deformem a todo custo, em rede nacional? Quantas e quantas pessoas ainda não fazem isso nos dias de hoje? Basta ligar a tv em qualquer canal nacional ou internacional. Até onde questionamos por repressão, transformando em cômico, até onde vai o limite que fala da preservação da vida?
A questão é que a mídia dos dias de hoje torna tudo muito rápido. Fenômenos estão emergindo e submergindo. Pessoas são descartadas em menos de seis meses. Crianças voltam a serem usadas como atração. Tudo muito rápido e tudo muito seguido. Amy Winehouse será a próxima? MJ durou 50 anos, quanto tempo ainda restará para Amy? (comentamos sobre isso também em outro post aqui)
Se pensarmos na nossa mídia nacional, não temos muita diferença. Quantos “Reality Shows” temos hoje que “cruzaram essa linha”? Quantos programas viraram “caça-tragédias”? Quantos noticiários passaram a expressar somente esses casos e deixaram o jornalismo de lado? Quem vai transmitir o primeiro assassinato ao vivo, em tempo real?
Nessa semana de MJ, onde estão os atos secretos, o Irã, as falcatruas e as notícias realmente importantes? Mas isso não vende. Assim como paramos pra ver alguém acidentado sangrando na calçada, pararemos para seguir atentos às notícias sobre a morte de Michael, amando-o ou odiando-o, maioria de nós estará lá, todo tempo ou em alguma parcela dele, realizaremos nossos impulsos mais inconfessáveis, sem culpa.
Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps
www.cinematerapia.psc.br
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