A Ilha – Uma Prisão sem Grades – por Eduardo J. S. Honorato
Quem me conhece ou lê meu blog com frequencia, sabe da minha paixão pelo cinema e por alguns tipos de literatura. Por isso, estou sempre em contato com filmes novos e velhos, sempre em busca de algo que possa ser usado por alunos e profissionais psi.
Alguns filmes possuem melhor conteúdo, outros nem tanto. Os considerados mais interessantes, viram artigos para a Revista Psique ou para o livro que estou escrevendo. Porém, alguns outros despertam meu interesse, mas não a ponto de escrever sobre ele, mas apenas levantar pontos de reflexão interessantes.
Um destes filmes foi “A Ilha – Uma prisão sem grades”. Influenciado por um filme homônino “A Ilha” onde questões genéticas e comportamentais de clones sao abordados, em uma visão futurista, acabei vendo este filme. Fiquei supreso por se tratar de um filme sobre adolescencia e consumo de drogas.
Uma produção relativamente simples, com locações boas e baixo custo em figurino e elenco, mas que, por ser baseada em fatos reais, nos leva a refletir sobre a forma como lidamos com a juventude, a adolescencia, os sintomas, as transgressões e, principalmente, a dependência química.
O filme é focado em um centro de concentração quase nazista, onde pais, ocupados com suas vidas modernas e agitadas, delegam as atribuições parentais a um pseudo-militar, perverso . Como todo perverso, usa e abusa de seus conflitos projetados nos demais, criando um ambiente de negação, alienação e controle, como se os adolescentes fossem ratos de laboratorio. Cria e recria teorias causais mirabolantes, colocando todos os dependentes em uma “mesma categoria”.
Isto denota não somente um total desconhecimento sobre dependencia quimica, como também sobre os conflitos e problemas que se apresentam nessa fase da vida tão específica que é a adolescencia.
Entretanto, o filme não pretende esgotar o tema, nem dar uma visão politicamente correta de como seria o trabalho de profissionais QUALIFICADOS para lidarem com a questão. O filme nos trás um exemplo, BASTANTE COMUM no nosso país, de como NAO DEVEM SER TRATADOS OS DEPENDENTES QUIMICOS.
Não tem como não deixar de fazer uma relação com notícias recentes na mídia sobre abusos cometidos nas ditas “comunidades terapêuticas” que por questões legais ficam a “mercê” da própria sorte, sem uma regulamentação rígida e concreta em relação a sua atuação. E assim ocorrem os abusos, de todas as formas, nestes ambientes, muitas vezes longe da civilização e da fiscalização.
Quem fiscaliza essas comunidades? São necessários profissionais qualificados? Essa união com a religião é saudável? Existem estudos que comprovem se há eficácia, eficiência e efetividade neste tipo de tratamento?
Não podemos também generalizar que todas estas comunidades são nocivas. Conheço vários estabelecimentos que, mesmo ligados a religião, de uma forma saudável, têm profissionais de psicologia, psiquiatria, terapeutas ocupacionais e serviço social em seus quadros, facilitando o acompanhamento necessário nesses casos.
A mensagem final do filme nos mostra como os jovens, desde a decada de 70, quando esses movimentos comecaram, sofreram abusos dos mais variados tipos. Podemos refletir sobre a necessidade de informação que o publico leigo, leia-se pais desesperados, precisam tomar conhecimento antes de enviarem seus filhos para locais como estes.
Bom filme!
Eduardo J. S. Honorato
Reforma Ortográfica….
Recebi vários links e RSS sobre a Reforma ortográfica. Fiquei curioso e fui ler sobre e NÃO consegui conter meu humor sarcástico e vou ter que comentar…
Fiz uma comparação com as datas e fiquei pensando….
Enquanto o mundo europeu falava de unificação de economias e de moedas, abrindo fronteiras e buscando mercados, o “grupo dos paises de lingua portuguesa” estava:
“pretendendo unificação ortográfica desses países….”
E faço o que com essa coisa de unificação?
É claro que isso pode “facilitar” disseminação de cultura, conhecimento, blábláblá….mas…não tem coisa melhor pra eles “pensarem” não?
Não to questionando que o modelo do “euro” seja legal, bonito ou qualquer “adjetivo positivo”. Existem zilhões de questionamentos sobre o neoliberalismo e essa crise imensa que vamos passar…..mas..pelo menos eles estavam tentando algo sério.
Se o nosso acordo de ORTOGRAFIA levou 15 anos pra ser votado, e 18 pra entrar em vigor……será que a mídia não tá dando assunto demais pra algo que não é “lá tudo isso”….Já dei aulas e inglês e acredito que para se aprender um outro idioma, você precisa saber o SEU primeiro. Nossa gramática é bastante complexa e facilitaria muito se ficasse mais acessível a população.
Poderiam ter usado esse esforço para FACILITAR. E Espero que isso seja realmente o motivo por trás deste “auê” todo que a mídia vem fazendo em relação a esse “acordo”. Pq se for por outro motivo, seria perda total de tempo.
Q q mudou?
K W Y passaram da ilegalidade para a legalidade. Sim….essas drogas ilíticas, digo, letras “fantasmas” passaram a ser cidadãs portuguesas. Seria como um imigrante ilegal ganhando o “green card”. Todo mundo sabe que eles existem, trabalham ilegalmente, mas fingem que não vêem, pq precisam deles. Assim, se você tinham amizade com “k”, “w” e “y” e antes tinha preconceito ou vergonha….não se preocupe: agora vocês podem oficializar a amizade. Não existe mais o preconceito. Wohooooo
Assim, nínguem vai ser mais “obrigado” nos cartórios a registrar os filhos como Uélintom, Cateane, Iasmine….tá “tudo liberado”…..sim…Kleydyannyahh, Wndysneydusohn. Ypsylúchyah, Valldisnei. Viva! Vou até ver se posso mudar meu nome para Edduarddooooow (wow wow wow bem no estilo “terça insana).
O “trema” desaparece. Noooooooossa (by Pânico na Tv). Alguém notou a presença dele nesses últimos anos? Servia pra que mesmo? Quem usava? Mudou alguma coisa na existência da humanidade? Ah tá……pq não desapareceram com a Pedofilia, criminalidade, analfabetismo, Epidemias, Desastres…..oops….desculpa…precisamos “unificar nossos idiomas para o bem”…….de que mesmo?
“Não se usa mais o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas”. Nossa….isso é importantíssimo. Tenho que me lembrar de avisar a Katyhúscyah que não pode mais falar “isso não inflói nem contribói”, tem que ser “isso não influi, nem contribui para algo”. Eles poderiam ter mudado assim:
Coréia para Coreia sem guerras, armas bioquímicas, torturas e tudo mais…
Debilóide para debiloide com respeito e investimentos em saúde mental
Jóia para joias não roubadas, sem criminalidade
Tramóia para……bom…essa muda pra honestidade.
Mas, algumas coisas não mudaram….ufa, que alívio.
“Papéis” continuam os mesmos…nada muda no cenário.
“Heróis” e “heróis” continuam distantes da gente….na mesma.
“Troféu”….melhorou um pouco, mas poderia ter mais investimentos.
“Não se usa mais o acento das palavras terminadas em êem e ôo(s).” Algo muito importante mesmo.
Enjôos passaram para enjoos e com isso, espero que todas as mulheres estejam sendo orientadas a fazerem o parte normal, e não o número abusivo de cesarianas.
Pronto…cansei de ler essas regras. Pior do que eles perdendo o tempo com coisas assim, sou eu, perdendo meu tempo tentando entender. Tem coisa mais importante no mundo pra se pensar. e fazer…
Bye
Ps: Não tenho ninguém pra corrigir meu texto, não uso corretor do word, e não tenho saco pra voltar e ler o que eu escrevi…..tb tenho mais coisa pra fazer! ahahahaha
Tortura na TV – Por Eduardo J. S. Honorato
Tortura na TV
Antes de mais nada queiro deixar registrado que sou fã do Panico, seja na versão na TV, seja no rádio. Apesar de “escrachados” e debochados, acho que eles tem um importante papel na televisão, como fonte alternativa e livre de humor e imprensa. Há espaço para todo tipo de humor e o deles está garantido.
Entretanto, como fã e psicólogo, não posso deixar de me pronunciar frente a algo que tem se mostrado na TV e que tem me deixado bastante preocupado. O humor deve ser livre , logo…. alí se fala mal de negros, brancos, gays, heteros, bonitos, feios, famosos, anônimos…tudo é motivo para deboche, e sempre muito bem elaborado.
Da mesma maneira que as integrantes femininas do programa foram expostas a atividades físicas, digestivas (erghhh) e nada agradáveis, nada mais do que justo que um integrante do sexo masculino passasse por sofrimentos semelhantes….nada mais equalitário possível.
O quadro 5 Maneiras, com o personagem “Bola” foi criado e se tornou um dos pontos altos do programa. Foram vários os episódios engraçados, onde o ator teve que usar costumes e se submeter a atividades ridículas, como se vestir de king kong. Porém, no início os “ferimentos” eram sempre de leve, de maneira meio consequenciais de tais atos “estúpidos”. Entretanto, comecei a perceber ao longo das semanas que os ferimentos deixaram de ser as consequencias e passaram a ser os objetivos do quadro. Comecei a ficar um pouco intrigado, mas a coisa ainda estava meio “leve”.
Entretanto, não posso deixar de relatar que a coisa agora está me preocupando e não acho que isso esteja sendo saudável. Como profissional de Psicologia, com o objetivo de “não contribuir para a baixaria na televisão” acredito que é hora de repensarmos isso.
Os episódios mais recentes têm se mostrado bastante agressivos, com situações que beiram a tortura. O ator passou a ser agredido em pleno programa e as sequelas físicas passaram a ser veiculadas como troféu. Isto se torna preocupante em dois aspectos importantes:
1 – Estamos falando de um programa veiculado para um público jovem, adolescente e jovem adulto. Qual a NECESSIDADE de expor este público a este tipo de conteúdo? Não estou falando de censura por faixa etária, pois o programa tem sua delimitação de público, mas sim de usarem este espaço de maneira mais educativa e socialmente contributiva, como a campanha recente em apoio a “Lei Seca”, muito bem elaborada e criativa(mesmo sendo parte de merchandising – o que mostra mais uma vez que seus produtores são muito inteligentes – ponto pra eles!)
2 – Falar em tortura em um país com um passado de ditaduras como o nosso, é cutucar uma ferida de uma nação e de uma geração inteira. É como falar do holocausto de uma maneira “lúdica” para um Judeu. Assim como o Holocausto, nosso período de ditadura e negação total de direitos deve ser lembrado de uma forma EDUCATIVA, para que episódios absurdos como esses não se repitam, e não vangloriando a parte mais negativa e suja desse passado.
Sou fã absoluto do humor inteligente, do humor debochado, do humor livre…..mas há uma TENUE linha entre esse tipo de humor e alguns tipos de agressões. O segredo neste ramo deve ser conseguir chegar o mais próximo possível, sem ultrapassar essa linha.
Como já temos a prova anterior de que os redatores são muito competentes e habilidosos, tenho certeza que conseguirão reverter esse quadro.
Ah…vale ressaltar que o quadro Amy Winehouse iniciou muito criativo, e apesar de ser fã da cantora, acredito que ela não seja qualquer exemplo ou seu comportamento deva ser vangloriado. Acho que os redatores encontraram uma maneira bastante interessante de tirar um lado cômico dessa situação. Mas….ultimamente perdeu-se o sentido de ser engraçado. Enquanto dois dubles simulavam cenas de confronto….ok, mas passou a ser agressivo, com provas absurdas que visam agressões físicas.
Divido com vocês algumas pontuações feitas pela Psicologa e Psicanalista Denise DeschampsÇ
“Não assisto esse programa e sinceramente não apoio quadros humorísticos que façam de alavanca as fragilidades alheias. Pensemos na tendência ao perverso que encontraremos na infância e ainda no início da adolescência. Será que esses programas se tornam só catárticos ou acabam por construir modelos de imitação? Essa é a grande pergunta que a psicologia pode ajudar a encontrar parametros para a reflexão sobre. SE o chiste revela o recalcado, ou seja, a piada aponta para aquilo que temos dificuldade de assimilar na cultura, ela tem uma capacidade disruptora inerente e uma capacidade recalcante tb. Padrões éticos se constroem a partir desse tipo de questionamento, a tv tem obrigação de passar seus conteúdos pelo crivo dessas reflexões. O sado-masoquismo faz parte do recalcado ou quando melhor ainda, do sublimado. Esse tipo de quadro o que fará com isso? Atuado, recalcado ou sublimado?”
abs
O sujeito não tem idade – Por Renata Duailibi
“… porque aos olhos da psicanálise não há uma criança ou um adulto, há um sujeito”.
Rosine Lefort
A possibilidade de atender uma criança saudável no contexto hospitalar foi uma experiência singular (como toda a experiência analítica) e ao mesmo tempo plural: muitas questões, muitos atravessamentos, muitos sonhos e muitas elaborações.
X. é uma criança de oito anos cujo pai está internado no CTI do hospital em estado muito grave. A mãe vinha trazendo questões dele na escola e em casa, que mostravam o quanto ele precisava ser ouvido naquele momento. A psicóloga que a acompanha sugeriu que eu o atendesse, o que prontamente aceitei.
O primeiro contato foi breve, no hospital. Apresento-me, convido-o ao consultório e marcamos o horário. De início já me chamou atenção a postura dele: muito adulta. Horário que não atrapalhasse a aula e que não prejudicasse seus estudos. Mais tarde, no a posteriori, percebo que é o papel que ele assume na ausência do pai: do homem da casa, responsável e sábio. O homem que cuidaria da mãe, como recomendou seu Pai do lugar de lei.
Logo na primeira entrevista, X. conta um sonho que ele chama de “sonho da voz”. É uma voz que não tem “cara” (sic) e repete incessantemente: “seu pai vai morrer, seu pai vai morrer” (sic). Daí começo a interrogar o que ele sabe do pai. Como ele está, a gravidade da doença, a recorrência do sonho, como se sente quando acorda e como é a vida na sua casa. Ele se põe a falar, num português correto e numa linguagem bem elaborada para seus oito anos.
Quando tem receio do que diz, por vergonha ou insegurança, esquiva o olhar, brinca com os cabelos e sorri. Ele deixa claro quando tem resistência em falar.
Muito bem informado, X. sabe que seu pai não tem condições de voltar para casa, o que não diminui a saudade e o espaço vazio que ele deixou no Dia dos Pais. Trabalho com ele o sonho da voz, onde concluímos que ela é, na verdade, a voz do seu medo, o horror da possibilidade de perder o pai que ainda vive no hospital. Conta, ainda, como é ficar em casa com a mãe. Diz que ela acorda chorando de madrugada e que também tem pesadelos. Que ele tem que acalma-la e dizer que está tudo bem. Dividem a mesma cama, já que seu quarto ainda não está pronto. Novamente, o homem da casa? Não vê a hora de ter seu beliche e dormir separado da mãe, mas sabe que enquanto a reforma não acabar e o pai não sair do hospital, é difícil ter seu próprio quarto.
Ganho evidente para X. na ausência do terceiro. A mãe é só dele!
Peço que ele faça um desenho de como ele imagina seu pai no CTI. Aparece um pai imenso, com ênfase na “barrigona” (sic), numa cama que ocupa quase toda a página e um respirador cujos pés são reforçados com o lápis “para não cair, senão meu pai não respira”.(sic). Desenho colorido, assinado e finalizado, vai para o Box do pai onde existem vários outros desenhos seus.
Começo a construir com ele uma relação de confiança e verdade( transferencial): tudo que conversarmos é segredo e tudo que acontecer com seu pai, de bem ou de mal, ele será participado. X. leva isso muito a sério e passa a me colocar no lugar do sujeito suposto saber, aquele a quem ele endereça seus sonhos, confia seus medos infantis, certifica que seu pai esteja bem cuidado.
“ Você promete que meu pai vai ser bem tratado?”.
“ Falei para minha mãe que eu só conto isso para você.”.
“ Depois que converso com você eu fico melhor.”.
Surge a possibilidade dele entrar no CTI e visitar o pai que demanda vê-lo. A coordenação libera sua entrada desde que ele seja acompanhado pela Psicologia. Primeira grande exceção: criança não entra em CTI antes dos 12 anos de idade.
Não tive a menor dúvida em bancar a entrada dele. Sabia da necessidade do encontro com a realidade, da importância disto para a significação desta vivência muito colorida no imaginário. Afinal, havia três meses que não via o pai. O que sabia, o que desenhou, eram informações de outras pessoas. Era ver para crer, era certificar-se que o pai estava lá. E a partir disto, elaborar mais um pouquinho do que tanto lhe assustava.
Converso com X., marcamos uma nova consulta antes dele entrar no CTI. Muita ansiedade, expectativa e um sonho novo: o pai sairia andando do CTI e o levaria passear. Explico, sem querer plagiar Freud, que sonho é a realização de um desejo. Mas que a realidade muitas vezes não condiz com o que se deseja. E o sonho da voz? Tinha sumido desde a consulta anterior. Ele explicou para a mãe que, caso ela sonhasse pesadelos, era só dizer em voz alta que eram imaginação. Pronto! Os sonhos ruins desapareceram.
Explico o que ele vai encontrar, como seu pai estaria cheio de tubos e fios, que falaria com dificuldade, mas que queria muito vê-lo. Ele me pergunta se pode mostrar o baralho de jogos e contar o quanto tinha evoluído na escrita: “Já consigo escrever em cima da linha como ele me ensinou”. Digo para ser espontâneo e ele me responde que só não iria chorar.Tinha que ser forte perto do pai. Sugiro que ele ficaria sozinho no Box e que quando precisasse de mim era só chamar. Mas ele prefere que eu fique com ele e entra comigo de mãos dadas.
Momento de comoção. Membros da equipe chorando, fazendo fila para ver o menino entrar. “Nossa, é a cara do pai…” “Que menino lindo!…”.
Discutiu-se muito o que X. suscitou na equipe o que se esperava dele: ser o objeto capaz de acelerar a recuperação do pai. Por várias vezes tive que negar sua entrada por não ser demanda dele nem do pai, mas da equipe. Até seu aniversário seria comemorado no CTI, com balão e bolo. Mas, isto não se discute agora…e sim junto com as outras colegas envolvidas no caso. Agora é sua primeira visita ao pai, o seu momento com ele.
Logo quando chega no leito, tira o baralho do bolso e esboça um sorriso. Precisa de um tempo e de um meio para acessar o pai que começa a chorar deixando X. incomodado. Explico que é normal a reação. E que se ele quisesse também poderia chorar e tocar seu pai. Autorizado, chora. Dali uns minutos, seca as lágrimas e põe-se a contar suas histórias.
Fica bastante tempo sozinho e depois com a mãe. Regride quando na presença dela e me explica depois que era a alegria de estarem os três juntos.
“Vejo vida nos olhos do meu pai!”.(sic)
Saio com ele e elaboramos juntos a experiência. Já sai querendo voltar, e quando peço que diga o que sente ele responde: “ não tenho palavras para explicar”. Explicar o que não tem muito sentido. Realmente, faltam palavras.
X. mantém contato comigo por telefone sempre que quer me contar alguma coisa. Seja nota da escola ou briga com um colega ( seu saco de pancadas, como o chama). Se ele não telefona, eu ligo. Pergunto dele e das notícias que tem do pai. Sei que ele não pergunta nada para a mãe, mas presta atenção nas suas conversas e nas suas feições.
A psicóloga da mãe orienta que ela participe o menino das pioras e melhoras. Ele está seguro de que é incluído nesta história.
O atendimento seguinte se dá depois de uma piora do quadro. O pai regride no tratamento e quando X. vai vê-lo, não gosta muito do que vê. Faz o mesmo desenho da primeira vez em dimensões menores. A cama pequena no centro da página, com o corpo do pai menor, careca e o respirador com os pés mais reforçados. Inclui o enfermeiro, a mesa com remédios, uma janela por onde entra luz e uma porta: a porta da saída, que um dia vai abrir para seu pai passar. Este desenho não tem cor. Só seu nome é escrito em azul, cor do time que o pai torce.
A careca me chamou atenção e X. comenta: “eu estou deixando meu cabelo crescer e o do meu pai está careca porque ele está fraco” (sic). Repito a frase e ele ri, dizendo que um dia seu pai terá cabelo de novo.
Mantemos o contato e ele me liga pedindo para ver o pai porque é seu aniversário. Não foi possível atender seu pedido. O pai piora demais nesta semana. X. conclui que é melhor ir ao clube, já que é seu dia e ele quer estar feliz.
Quando o pai melhora, quer ver o filho. Marcamos para um feriado, mas a visita logra. X está com conjuntivite e não pode entrar no CTI. Percebendo sua frustração e uma fantasia subjacente de que algo não vai bem, sugiro tirar uma foto do pai e mostrar para ele. “ Nossa! Que idéia ótima!”(sic). Peço licença à médica e ao pai, tiro a foto e levo para ele. Faço o mesmo com o menino. E ambos se encontram mesmo que simbolicamente.
O desenho desta vez parece muito com o anterior. Mas pelo menos há cor e um pai maior, ainda ligado ao grande respirador.
Pergunta-me se quando o pai morrer ele pode ficar com ele no coração. Digo que sim, claro que pode. Mas que agora ele estava bem, e mesmo bem, o tinha no coração.
Se ele pudesse falar hoje com o pai, o que falaria? Falaria do seu desejo de jogar futebol como ele antes de “ganhar” a bengala. X. dá conta de identificar-se com o pai um pouco mais fortalecido.
O pai entra num processo de melhora onde aparece a possibilidade de alta. X. fica radiante e pede mais uma visita. Lê no boletim “ estável” e percebe o que a palavra significa. Fala-me das fases do pai: muito grave, grave e estável. Estar estável era estar melhor!
Acha que ele ia sair pela porta, dirigir seu carro e ir para casa, como no sonho anterior. Explico que não. Ainda havia a fase do andar, da recuperação ainda por vir. X. não gosta muito da idéia e me pergunta se ele pode ficar muito grave de novo.
Desta vez nem quis desenhar. Estava excitado, agitado, falando mais que nunca, fazendo planos com os pais.
O pai pede que ele saia para ficar sozinho com a mãe. X. sai muito mais agitado, querendo saber o que eles conversariam. Pergunto para ele o que sente naquela hora. Não tem palavras. Tento nomear. Quando falo ciúme ele responde: “ah, sou filho dele há muito tempo, não preciso ter ciúmes”. Respondo que ela é a mulher dele também há muito tempo e eles precisam conversar.
Com a volta do pai, os lugares teriam que ser definidos. Trabalharia isto mais tarde, quando fosse o momento oportuno.
O pai vai para o andar. A enfermagem já autoriza uma festa de Natal para a família. X. fala com ele pelo telefone e marca uma grande visita no final de semana.
Mas, ele tem uma parada cardíaca que o leva de volta para o CTI.
Minha preocupação com X. nunca foi tão grande. Ele teria que se reencontrar com a possibilidade da perda e com o boletim Muito grave.
Converso com a mãe depois que ela explica para ele o quadro. Conta-me que X. sabia da possibilidade do pai voltar, mas que ele ficaria estável novamente e tudo acabaria bem.
Acho por bem atende-lo no dia seguinte pela manhã.
Me abraça forte, chora (afinal, aprendeu a chorar) e me pergunta se pode ver o pai dele.
Traz uma pulseirinha com as cores do natal para dar sorte ao pai.
Conversamos muito, tentei trazê-lo para a realidade por mais que insistisse em fugir. Que agora ele teria que pensar num retrocesso do pai, como quando alguém não passa de ano e tem que repetir tudo que foi ensinado. Que o boletim dizia muito grave, mas eu arriscaria dizer Muito, muito, muito grave. E que a vida do pai estava em três mãos: de Deus, dos médicos no que ele interrompe: e da psicóloga? Percebo como era importante estar ali com ele naquele momento. Se a vida do pai eu não podia salvar, a dele eu podia dar sentido e apoio diante do real da morte.
Peço permissão ao médico e entro com ele e a mãe. A criança verbaliza que o pai está mais inchado, voltou para o respirador, tem mais tubos e está dormindo. Ou seja: realmente piorou.
Não demora lá dentro. Sente-se incomodado como da primeira vez.
Pede que eu coloque a pulseira em algum lugar porque no pulso não cabe. Deixo na cabeceira e saímos juntos.
Fechamos o atendimento muito brevemente. Ele não queria falar muita coisa. Brincava com o baralho e pedia para ir para casa.
Na mesma tarde, seu pai faleceu.
Os técnicos responsáveis me falam da angústia na hora da visita, do medo que ele morresse em frente ao menino, pois ele estava quase parando.
Não sei ao certo o que me fez marcar a visita na parte da manhã. Mas, seja lá qual for a resposta, criei a oportunidade dele ver o pai ainda vivo mas com todos os indicativos de que estava morrendo.
Quando ligam para casa e chamam a mãe ao hospital ele sabe que algo ruim aconteceu.
“Mãe, o que aconteceu com meu pai?”.(sic).
À noite falo com ele pelo telefone.
Chorando muito, diz estar não muito ótimo. Que estava doendo muito. Que a mãe também estava chorando, mas que o pai estava melhor agora, num lugar sem dor e sofrimento.
Lembro a pergunta que me fez, de leva-lo no coração. E que onde quer que ele esteja, eles continuariam sendo pai e filho.
Ele me pergunta se deve ir ao velório. Retorno a pergunta e ele diz que quer ir. Que tinha algumas coisas para dizer ao pai.
Despeço-me dele, digo que ligo no dia seguinte e, como havíamos combinado, ele podia me ligar a hora que quisesse.
No dia seguinte ligo mas está na rua brincando. A mãe conta que ele foi ao velório, levou uma flor, despediu-se e quis ir embora.
Pronto. Era como se ele dissesse: por hora basta!
Passada uma semana, liguei para ele.
Muito receptivo, diz estar melhor. Mas ainda não quer conversar sobre o pai.
Respeito o momento dele.
Tempo de elaborar e sofrer as dores da perda.
Tenho notícias que anda negando a morte.
Vou esperar a psicóloga da mãe atende-la, dizer da necessidade dele ser atendido e marcar um horário na próxima semana.
Ainda temos um grande caminho a percorrer. A elaboração da morte é sem fim. Mas tendo vivido a experiência de forma tão intensa e implicado no processo, X. vai dar conta de lidar com seus fantasmas, assim como aprendeu a lidar com a voz do horror, vinha lidando com a fraqueza do pai que não queria se tratar “mesmo se ele tomasse adoçante, ele bebia leite que não era light!” (sic) e com as incertezas do boletim.
Num certo momento ele me disse ser grato por tudo o que eu estava fazendo por ele.
Agora é a minha vez de agradecer a oportunidade única de tê-lo como paciente.
Renata Duailibi
E-mail: rduailibi@hotmail.com
Informamos que todas as normas da Resolução 196/96 do CNS e do Código de Ética Profissional do Psicólogo foram seguidos na elaboração deste documento. Trata-se de um caso FICTÌCIO, elaborado pela autora.
Desabafo – Por Eduardo J. S. Honorato
Dias e dias de chuva e nada acontecia em Florianópolis. A cidade “ ferveu” no Folianópolis e todo mundo dançou “arreia” com Ivete Sangalo debaixo de chuva. Os hoteis estavam lotados e a cidade estava toda animada. Asa de Águia e muito axé…..e muita água….ninguem esperava pelo que estava por vir….
Domingo continua chuvoso e está tão chato trabalhar ou fazer qualquer coisa. A casa tá úmida e voce começa a se incomodar com os pés e barras das calças meio molhadas. Algo meio estranho com essa chuva. Algumas notícias difusas na tv, comentários no rádio mas nada muito concreto…..
Você começa a perceber movimentos na mídia e as notícias aumentam. Voce percebe que está ficando feio e se aproximando. A barreira caí no meio de Floripa e todos levam um susto. A mídia nacional ainda não deu muita importância, com excessão de alguns canais. Continua chovendo e você fica mais e mais preocupado. Começa a ligar para alguns amigos e se preocupar com outros. Em algumas horas várias estradas desabaram e muita gente tá morrendo. Voce começa a sentir a falta de água e todo mundo preocupado com as cidades do norte.
A coisa foge de controle e Ana Maria Braga começa a alertar a todos. Voce já está se mobilizando pra comprar medicamentos e doar roupas. Faz doações e mobiliza as pessoas na internet. Mesmo assim você continua incomodado, e tem mais tragédia na televisão. Tem sinal de SOS e todo mundo “ajudando”, mas algo diz que não está certo…que dá pra fazer mais um pouco.
Você lembra que o brasileiro é sempre famoso por ser solidário, mas porque não extender um pouco mais? Nas enchentes nos EUA nós nos sensibilizamos aqui e mandamos dinheiro. E quando é na NOSSA casa, a gente vai fazer a mesma coisa? Eles conseguiram revolucionar nas eleições, e nós podemos revolucionar em exemplo histórico de solidariedade.!!
Aí voce liga a TV e lembra do Filme Independence Day….e repara que você está do lado de uma situação igual a do cinema, que voce vibrou e torceu pelos heróis, e que achou um excelente roteiro. É hora então de levantar a bunda da cadeira e sair da Internet. Separe suas coisas e promova um desapego. Dôe não somente aquilo que voce NAO quer, mas coisas que voce QUER também, mas PODE DIVIDIR.
Isso é solidariedade. Separe mais coisas para doar, procure os hemocentros, veja se as igrejas e associações precisam de voluntários. Transfira nem que seja 10 ou 20 reais…. Arrecadem roupas em shoppings. Desde brinquedos para crianças até oculos escuros. Além de COMIDA, ÁGUA e AR, eles vão precisar de TUDO. Imagine você amanhecer de uma hora pra outra SEM ESCOVAS DE DENTES, SEM ROUPA, sem ter onde ir ou fazer, e SEM UM PARENTE. Além de não ter NADA mais, sem direção, você ainda sofre com a dor da perda de um familiar. Imagine….se possível, a DOR que essas milhares de pessoas estão sentindo. Se pudermos dividir essa dor por todos nós, eles não vão sofrer tanto.
Se DÔE, mas faça com vontade, pois TODA ajuda será benvinda. Se você está na região, pegue seu carro e vá para uma das localidades e ajude na limpeza das ruas, na separação de mantimentos, nas entregas de comida. Se é da área de saúde, troque seu sábado de descanso, por um sábado de AMOR AO OUTRO. Faça isso, que nos encontramos por lá!
E aí eu pergunto…..a vida que imita a arte ou a arte que previu a vida? ? ? ? ?
Não posso deixar de complementar este texto, depois desde “belíssimo” Sãbado que tive. Acordei cedo, decidido a ir a Itajaí e trabalhar como voluntário. Consegui convencer alguns familiares e pegamos a estrada cedo. Não sabia como reagiríamos ao chegar lá.
No caminho me peguei pensando sobre como somos preparados para lidar com a dor do “Outro” na clínica, e como seria possível fazer isso em uma situação de catástrofe como essa. Lembrei da “neutralidade” profissional, e que ser “neutro” não é jamais deixar de sentir pela dor do Outro, mas sim, ter uma postura que seja benéfica a ele. E era disso que aquelas pessoas estavam precisando….de pessoas para AJUDAR e não para lamuriarem ou terem “pena”.
Anos de faculdade ou experiência, seja pessoal ou profissional, não podem te preparar psicologicamente para uma situação dessas. Logo na estrada você já percebe a movimentação da polícia e do exército, coordenando e tentando manter a ordem no “caos”. A cidade parece estar abandonada. Muitas casas sem energia elétrica e sem AGUA. O comércio está todo fechado e parece um filme de cidade “fantasma”. Você então percebe que seu dinheiro, seus cartões ou qualquer bem não tem o MENOR valor alí. Você só tem VOCÊ, como pessoa, para oferecer como ajuda.
Em toda a cidade, pessoas passam de bicicleta com garrafas de água, motos carregando colchões. Crianças com sacolas de comida e roupa de cama. As filas são QUILOMÉTRICAS e as pessoas, sem distinção de classe social, se organizam para receberem os donativos. As marcas de água e lama nos muros chegam a quase 2 metros de altura e é impossível imaginar que aquilo alí foi tomado por uma “tsunami” de lama há alguns dias. Ainda tem muito barro na cidade, muito lixo nas ruas. O supermercado, que fora saqueado há alguns dias, está destruído. Algumas coisas estão “fora do lugar”e não fazem “sentido”. Blocos de concreto longe do ponto de origem. Carros cheios de lama em locais “proibidos”. Muros de concreto a metros de onde estavam. É um cenário “pós-guerra” onde o inimigo “mãe natureza” chegou de surpresa, de mansinho.
São vários os pontos de encontro de voluntários espalhados pela cidade e você tem que procurar um o mais rápido possível. Chegamos a um local que parecia um centro de convenções. Do lado de fora, muitos caminhões do exército, caminhões de empresas privadas. O cenário “choca” a primeira vista, mas você precisa lembrar dos milhares de desabrigados que estão nas filas quilométricas esperando por água potável, água para tomar banho e algo para comer. Não há supermercados, padarias, lanchonetes…nada aberto. Eles dependem da SOLIDARIEDADE para sobreviverem e reconstruir suas vidas.
Muitos voluntários chegam de outras cidades e há cadastramento e organização dentro do “caos”. A polícia e o exército organizam tudo para que nada seja desperdiçado ou utilizado indevidamente. Ninguém alí se conhece e a única coisa que temos em comum é o desejo de ajudar aas vítimas. Sem muita coordenação, você precisa procurar um ponto para ajudar. Há triagem de medicamentos, separação de roupas, sapatos, utensilios domesticos, material de limpeza. Todos os donativos recebidos são separados por área e tipo e depois são “ensacados” em pequenos “kits”.
A todo momento novos caminhões chegam e as pessoas fazem aquela famosa “fila” para descarregar. Você olha pro lado e vê mulheres, crianças, adolescentes….pessoas de todas as raças, classes sociais….todas carregando peso e doando o seu dia para ajudar desconhecidos. Haviam senhoras bem idosas, sentadinhas em cadeiras, fazendo “mini-kits” com absorventes, pasta de dente, escova, com todo o cuidado e carinho do mundo, como se fossem presentes de natal.
Todos têm identificação, mas nessas horas, “ninguém tem nome”, todos são “amigos”. Você conversa com as pessoas do seu lado e percebe que muitos alí também são VITIMAS da enchente, e como não há água potável em casa, e nada pode ser feito no local, juntaram o restinho das forças que tinham pra auxiliar os demais, enquanto esperam a normalização da situação.
O corpo têm um limite, e pede pra parar. Há uma grande mobilização de voluntários, cuidando dos voluntários, garantindo que todos se mantenham hidratados e alimentados. Uma cozinha “quase industrial” foi montada para alimentar as centenas de pessoas alí presentes. Há muito material químico no local (Cal, cimento, material de limpeza,etc) e todo cuidado é pouco. Donativos não param de chegar e são anunciados em um alto falante, e todos comemoram, como se estivéssemos em um estádio de futebol e alguem fizesse um GOL. Gol da seleção brasileira! Vários eram os voluntários que, mesmo que inconscientemente, vestiram a MESMA roupa: A CAMISA DA SELEÇÃO BRASILEIRA, demonstrando um patriotismo acima de tudo, com muito amor ao próximo.
A minha experiência clínica e pessoal me mostrou que em todo sofrimento pode haver uma forma de aprendizado, e só temos que elaborar o luto e seguir em frente. Talvez esse seja o NOSSO momento, de dentro desta “dor” retirarmos algo de positivo e resgatarmos algo que está esquecido há alguns: NOSSO PATRIOTISMO!.
Ser patriota não é vestir a camisa da seleção e cantar o hino nos dias de jogos. Ser patriota é mostrar amor pela sua nação, e fazer de TUDO para ajudar ao próximo. A história nos mostra que inúmeras nações passaram por tragédias, das mais variadas, causadas ou não pelo homem, e com um sentimento forte de patriotismo, conseguiram se ajudar e atravessar crises piores. Vamos então aprender com esse exemplo e brigar pelo nosso país. Além ajudar, podemos aprender sobre TRANSPARÊNCIA. No site oficial do incidente (www.desastre.sc.gov.br) já podemos acompanhar o recebimento dos donativos e fiscalizar as contas. VAMOS APRENDER A SERMOS TRANSPARENTES COM O DINHEIRO PUBLICO.
Portanto, se você está em outra região do país e não pode passar por essa experiência, se DOE de outras maneiras. Arrecadem mais donativos, mais dinheiro, mais campanhas…..pois esta foi apenas UMA das várias cidades atingidas e muito mais gente precisa de você.
Acesse o site www.desastre.sc.gov.br e veja como voce pode ajudar MAIS
Gostaria ainda de ressaltar que, o TURISMO é uma das primordiais fontes de renda na região catarinense. Vários municípios NÃO ATINGIDOS podem sofrer consequências, a longo prazo, com a diminuição do turismo na Região. Portanto, se você pretendia, ou pretende, vir para a BELA E SANTA CATARINA, não cancele sua viagem, pois os municípios não atingidos estão esperando por VOCÊS. 
Para os “baladeiros” de plantão, informo que Floripa está com MUITO SOL, praias “bombando” e o verão JÁ COMEÇOU!!!
Coloquei algumas fotos no meu album do orkut. Meu objetivo é apenas que as pessoas vejam a situação com outros olhos, e percebam que Santa Catarina não é no Oriente, na África ou o Haiti……é DO SEU LADO, e você PODE fazer um pouco mais.
Fica aqui meu desabafo e relato da experiência….o trabalho continua!!!
Eduardo J. S. Honorato
Psicólogo e Psicanalista
http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=10025505058382138918
CYBERPSICOLOGIA, PSICOLOGIA CIBERNETICA, PSICOLOGIA E INFORMATICA, PSICOLOGIA DIGITAL…..QUE BICHO É ESSE? – Por Eduardo J. S. Honorato
E comum hoje sermos atravessados por ondas de informações, vindas de todos os lados, sem termos capacidade para absorção. Falamos em siglas e as repetimos com tanta freqüência que muitas vezes nem sabemos mais o significado original daquele termo. Palavras de outros idiomas são fagocitadas pela nossa língua e novos termos surgem a cada dia, principalmente na tecnologia de comunicação & informática.
Faça a seguinte pergunta a 5 pessoas: “O que é a Internet” ?
Se a pergunta for direcionada a adolescentes, estes lhe darão respostas técnicas das mais variadas, citando sempre programas, jogos e utilidades. Se perguntarmos a pessoas de uma faixa etária mais avançada, as respostas serão mais variadas. E se perguntarmos a 5 Psicólogos ou Psicanalistas? Perceberemos então que não há um consenso, pois a resposta não será nem tão técnica nem tão abrangente, ou, não relacionada à sua profissão.
Isso reflete algo bastante recente e ainda pouco explorado: o mundo virtual. Poucos são os pesquisadores das áreas psi que se interessam pelo mundo virtual e suas peculiaridades. Alguns bravos profissionais pesquisam sim, mas a produção é pequena e lenta frente à alta mutabilidade deste “mundo” e sua constante evolução. Eu arriscaria a dizer que o virtual evolui em uma velocidade de conexão à cabo e as pesquisas ainda na velocidade da antiga conexão discada (via Telefone).
O que a Psicologia tem a ver com computadores, bytes, Internet , P2P, Softwares etc?
Essa é uma pergunta que faço desde 1997, quando comecei a utilizar a Internet com maior intensidade. Do uso surgiu um interesse maior, e deste interesse, a problematização de alguns aspectos, que dariam origem a pesquisas.
Algo que foi criado como artefato militar e que passou, depois de quase 30 anos, a ser objeto de pesquisa, depois interesse, depois diversão e hoje, necessidade básica. Tão necessário quanto o telefone ou a televisão.
No final dos anos 90 alguns profissionais e estudantes de Psicologia já pesquisavam sobre o assunto. Foram pioneiros no Brasil, onde o pouco que se sabia sobre o tema era oriundo de outros paises. Oliver Zancul Prado, Elisa Sayeg, Márcia Homem de Mello, Ivelise Fontin, Fabiana Maiorino, são alguns dos quais me recordo, em um pequeno congresso organizado em São Paulo, em 2001.
Muito se falava sobre Internet, seus impactos, dependência, mas pouco se conseguia pesquisar, seja por falta de financiamento, seja por falta de credibilidade de algumas instituições e pesquisadores.
Quase 10 anos se passaram, e alguns profissionais e estudantes ainda insistem em dizer “Isso não é Psicologia….” Mas…o que é Psicologia então? Independente da escola utilizada, todas tem um objeto de estudo em comum: o comportamento humano.
A explicação dada para esses fenômenos são diferentes, mas o objeto de estudo é sempre o mesmo. Então, um novo plano sociabilizador, uma nova forma de interação, utilizada em massa pelo homem, não mereceria melhor atenção dos profissionais psi?
Temos nitidamente uma nova forma de comunicação e interação com um alto carater psicossocial envolvido. A realidade criada por este novo meio de comunicação, que manifesta forma específica de socialização, traz no seu bojo transformações de relações, de encontros, de possibilidades afetivas e cognitivas. Até pouco tempo as relações sociais se restringiam ao campo do “corpo presente”, e hoje este corpo se desloca, transcende a corporeidade, para fundar um plano virtual de encontros.
Entender a Internet através da psicologia nada mais é do que uma tentativa de melhor entender o comportamento do indivíduo enquanto ser social, e talvez, contribuir para o entendimento do ser humano como um novo ser social-virtual.
Uma questão que deixo aberta para reflexao dos profissionais “psi” é: Quantos de nós estão preparados para lidar com esse novo plano sociabilizador? Quantos de nós estão inteirados com os conhecimentos tecnológicos da nossa atualidade?
Espero que essa reflexão possa ser um incentivo para maiores tentativas de entender o virtual, enquanto plano sociabilizador, que traz impactos psico-sociais, e consequentemente, melhor qualificação dos nossos profissionais.
Eduardo J. S. Honorato
O ato de viver como a esperança – Por Denise Deschamps
“…a esperança é, na sua essência, um horizonte que se descortina, um apelo que nos convida a caminhar e a ir sempre adiante pelos caminhos da vida…” (Zeferino Rocha – “A Esperança não é esperar, é caminhar” in Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental Vol X/2007)
Aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, no mês de outubro, uma jornada de psicanálise cujo tema central era “Esperança”, promovida pela Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro(SPCRJ). Tema intrigante se pensarmos em psicanálise e mais ainda se pensarmos na atualidade ou a chamada pós-modernidade. Esperança que lembra sempre o ato de espera, passividade, em uma sociedade que convida à ação imediata, ao prazer instantâneo, à escolha sem perda.
Começa a jornada, e, logo na abertura, somos apresentados a uma nova perspectiva para essa palavra esperança, não mais como espera passiva, mas sim como o próprio ato que faz o caminho. Esperança não é esperar, nem olhar para o horizonte, mas aquilo que faz com que possamos dar cada novo passo em direção ao amanhã. A esperança está no hoje então, não mais no futuro próximo ou longínquo. Se hoje não pudermos vislumbrar o que temos a esperança de construir, então não é esperança, é ilusão. Distinguir uma coisa da outra faz uma enorme diferença no ato da escolha. A esperança nunca será estéril, mas a ilusão sim, esta última se planta em terreno das fantasias que não passarão pelo teste de realidade ou cairão no primeiro obstáculo, desinvestimento inevitável se fará pelo caminho daquilo que não se apóia no mais legítimo desejo que nomearemos então de esperança.
“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”(Oscar Wilde) citado em um dos trabalhos apresentados. Existir sem esperança lança-nos direto na desesperança, no ato inútil, no investimento destituído de libido, cria então o caminho propício àquilo que hoje permeia as relações sociais, naquilo que têm de mais íntimo e que habita o cotidiano, assim como também habita em muito do que fala de ideal de ego, conceito esse muito bem lembrado nesse encontro. Vejamos que ele se diferencia de ego ideal, esse sim aferrado a ilusões sem chão de realidade. Necessário resgatar esse conceito tão importante em psicanálise, e que hoje se faz quase que uma saída última diante do desamparo que vivemos frente a uma realidade sem ideais ou sonhos possíveis. Ideal de ego, tudo aquilo que construímos em nome dessa esperança, que construímos através de outro conceito tão fundamental em psicanálise, o da sublimação.
“Ideologia, eu quero uma para viver” já cantava o poeta Cazuza.
Em outro trabalho que foi apresentado com o tema “O desejo nunca se realiza da mesma forma que a esperança nunca morre”(Maria Helena Mossé e Maria Lúcia Fradinho) encontraremos a seguinte passagem: “Esperança, sentimento primordial, intimamente entrelaçado ao desejo”.
Assim como a tristeza básica existente no ato de vida tem sido varrida das nossas possibilidades, a esperança tem sido uma palavra atacada e reduzida a algo muito menor do que pode trazer contida enquanto potência criativa. Voltamos a dizer, não como espera passiva, mas como motor do desejo que se alimenta nele e o realimenta na execução de passos que mobilizam o ato da vida naquilo que ela tem de mais belo, seus ideais e sua ética, beleza rara que o humano constrói.
Resgatar na própria concepção da psicanálise aquilo que seu fundador a inundou, na crença em laços afetivos e ideais coletivos que, quem sabe, um dia, construirão um mundo melhor e menos desigual ou repressivo no sentido do formulador da insuportável dor.
Ainda leremos no trabalho citado acima: “Para Freud, o fulgor da criação encontra seu ponto de emergência inicial no sexual. À capacidade plástica da pulsão de modificar seu objetivo originário sexual por um outro não-sexual, sem perder por isso o essencial de sua intensidade, ele dá o nome de sublimação”.
No caminho do desejo, muitas vezes devemos evitar o atalho do amortecer a dor de imediato, naquilo que hoje se constitui quase que em uma única possibilidade, o da “geração Prozac”(e tantas outras “poções mágicas”). Outro trabalho apresentado, com o título: “Esperança e desilusão – Uma visão psicanalítica”(Esther Perelberg Kullock) em determinado ponto nos remeterá a uma reflexão tão fundamental para os nossos dias, qual seja:
“A aflição demanda testemunho, o simulacro demanda a clínica do real. Há que se recolher fragmentos de experiência em que a pessoa/simulacro possa experimentar sofrimento: é o acesso ao sofrimento que lhe devolve a humanidade. São quadros que temos que manter discriminados, que demandam intervenções distintas por parte do psicanalista”. (visto em Safra)
1 -”Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma longa esperança malograda.
2 – O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda vida.
3 – Essa felicidade que supomos
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
4 – Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
(Vicente de Carvalho, Poemas e Canções – citado pela autora acima mencionada)
Em época de estabelecimento de relações perversas, que atravessam desde o procurado amor de parceria, até as mais complexas instituições, resgatar a ética contida no sofrimento do crescimento, talvez seja uma das saídas possíveis.
Esperança essa que se constituirá enquanto potência de vida, que traça o caminho do tecido afetivo que dá sentido à vida, que a preenche em cores, formas, cheiros, textura, temperatura e a tudo mais que fala daquilo que, em última análise, é o que faz com que nos levantemos a cada dia que nasce: nossos vínculos com outros seres, nossa capacidade de com eles construir algo que nos una, e que erga tudo aquilo que costumamos chamar de humanidade.
Maisa – A Menina Prodígio – Por Eduardo J. S. Honorato
Se você não conhece esse nome, provavelmente não assiste muito a televisão. Para o público infantil, ela é a apresentadora mirím do SBT, chegando a ganhar de algumas rainhas no IBOPE aos sábados pela manhã.
Se você é adolescente ou adulto, com certeza já viu um dos vídeos clássicos dela no youtube, ou dando audiência para programas como o Pânico e CQC, que literalmente, idolatram esta menina prodígio.
Sua maior caracteristica é ser sincera, como toda criança, porém, bastante desinibida e com grande desenvoltura no palco, uma vez que literalmente “cresceu” neste ambiente. É uma criança normal, como outra qualquer, mas que não visualiza o mundo da “tv” como algo “de outro mundo”, e faz do cenário, o seu fundo de quintal, se divertindo mais do que todos. Assim como os Backyardigans fantasiam no fundo de suas casas, ela vive as suas no palco de seus programas. alí.
Assistindo a algumas entrevistas esta semana, consegui entender um pouco mais do “fenômeno” Maisa e alguns pontos me preocuparam bastante, enquando profissional de Saúde Mental. Primeiro vamos recorrer a história e ao jornalismo, para entendermos um pouco melhor.
Segundo os sites e programas, Maisa foi descoberta por Raul Gil aos 3 anos de idade, em um quadro com crianças em seu programa semanal na Band. A menina se destacou pela desinibição e cantou, dançou, interpretou…..fez e refez…brincou e se esbaldou nos palcos do programa. Raul Gil afirma que pagava R$ 1500 aos pais da menina, um porteiro e uma empregada domestica (segundo sites). Alguns anos depois, quando as participações da pequena Maisa já atraíam os pontos do IBOPE e os olhares de outros executivos, umas das filhas de Senor Abravanel teria abordado os pais de Maisa, conseguindo um super contrato. Fontes afirmam que o salário da menina é hoje, algo em torno de 25 ou 30 mil. Nada mal para uma menina de 6 anos de idade……
Uma das clausúlas do suposto contrato com o SBT, diz que Maisa não pode falar com nenhuma outra emissora de televisão. E o que é proibido, é sempre mais gostoso ou mais divertido. Com isso, a equipe do Pânico na TV resolveu começar mais uma de suas campanhas malucas, instigando o público a apoiar mais uma causa inútil, mostrando como nossa juventude anda influenciável por pouco. Fala Maisa - a campanha, começou!
Para atrair IBOPE, claro, as gostosonas em micro roupas foram chamadas, com as faixas. E é claro, o “patrão” precisava ser entrevistado. Foi aí então que esse cenário começou a me incomodar, do ponto de vista profissional. Algo chamou minha atenção, desencadeando alguns pontos importantes.
Em um primeiro momento, Silvio Santos reafirmou a ideia de que Maisa não falará com outra emissora. Deu a entender que ela só estaria “pronta” aos 18 anos. Deixou também no ar que os pais teriam assinado contrato com o SBT até esta idade. Foi então que mostraram um vídeo dela, brincando com Silvio. Este, muito esperto e inteligente, haveria sugerido que Maisa usasse os cabelos cacheados, tentando resgatar algo no estilo “Shirley Temple”. Bang! O incômodo de antes ficou maior……hora de pensar melhor sobre isso. Ah….Silvio também afirmou que Maisa tem acompanhamento de um psicólogo, para quando estiver “preparada” para falar com o público.
Uaí….mas eu já ví essa história em algunS lugares antes. Vamos pesquisar na Net sobre Drew Barrymore, Michael Jackson, Macaulay Culkin, etc. Todos possuem histórias na mídia, seja de problemas com drogas, com a justiça ou involvimentos polêmicos com disputas legais, privacidade, busca por atenção, etc…..isso todos já entenderam o recado….Sem contar os casos nacionais, de ex-integrantes de boy bands, grupos infantis e familiares de famosos, inseridos num mundo midiático em idade precoce.
E Maisa, seguirá o mesmo caminho? Deixaremos uma menina servir de “experimento” sem nos manifestarmos? É Ético ver isso na tv, diante dos olhos de todos? Silvio Santos também me instigou….
Ficou na história como um grande comunicador. Talvez um dos maiores da televisão. Ele e Chacrinha, dividirão este título para sempre. Como finalizar em grande estilo? Dirigir algo que Chacrinha não fez: dirigir a vida de alguém!
E no maior estilo “O Show de Truman” ele dirige uma vida, em “reality tv” e encerarrá sua carreira.
Meio mórbido, não?
A “crise” está em toda parte! – Por Eduardo J. S. Honorato
Desculpem por demorar a atualizar o blog. “Estivemos” de férias e depois de um longo repouso e mais complicado colocar tudo em dia.
O que me chamou muito a atenção nas últimas semanas foi a palavra “crise”, muito difundida pelo mundo a fora, com impactos em todas as áreas. E nós psi? Essa crise nos afeta em que sentido?
Vamos por partes então….
Uma das crises mais comentadas no momento é a crise “social”. As vezes chamada de “moral”. O patológico se tornou o comum e banalizamos situações de extrema violência, nos tornando espectadores de barbáries, sem nos perguntarmos aonde estamos indo parar.
Para os que estavam acostumados a ver os gladiadores se matando numa arena em Roma, ver o assassinato de Eloá na televisão não seria nada “demais”. Acontece que, supostamente, “evoluímos” e com isso, deveríamos ter poupado as demais gerações de atrocidades humanos como estas. Há portanto, reflexos de uma crise moral, educacional, social, poliítica, etc. É uma sequência de problemas conectados, sem começo e sem fim, onde nao é possivel identificar uma relação de causa e consequência, mas apenas de que o “todo” não se encaixa. A prova disso são as explorações midiáticas destes casos. Estou esperando o dia em que execuções serão transmitidas ao vivo pela TV, ás 14h. Ou será que o próximo “reality show” será nos bastidores de uma delegacia, com toda a brutalidade e criminalidade existente em uma cidade grande? Quel tal um reality show nos necrotérios, com as necropsias sendo transmitidas ao vivo? Talvez esses dêem realmente bastante Ibope paras as emissoras.
A segunda crise é uma politica. Sim, em tempos de eleições não tem como não se assustar com “velhos” conhecidos corruptos sendo eleitos. Isto mostra a alienação que grande parte da população se encontra. Você, no seu Estado, deve ter exemplos de políticos mais do que corruptos, mais do que safados, mas que mesmo assim, conseguiram milhares de votos novamente. Como isso é possivel? Simples…quanto mais ignorante se mantêm um povo, mais fácil de se conseguir encobrir erros do “passado”.
Essa crise política também se estende as campanhas ditas “limpas”. Limpas onde? Por quem? O pouco de material político que lí ou ví era puro LIXO. Ataques baixos, acusações, réplicas…….peraí….campanha política não era para se falar de projetos? Desde quando o horário político virou o programa da Marcia Goldschimidt?
A crise nas polícias….essa é assustadora. A Polícia Federal investiga, encontra corrupção e passa a ser alvo, pois o “buraco era mais alto”. As polícias Civil e Militar se enfrentam, e não sabemos mais quem é o mocinho e quem é o bandido. A polícia de “elite” comete erros e “gafes” dignas de filmes de comédia dos mais baratos.
E a crise financeira? Essa talvez seja a mais grave e mais importante no momento….
Eu estava nos EUA quando a crise estourou e as bolsas também. Me assustei com os telejornais americanos, dando muito enfoque na possível recessão e crise econômica que se abateria no mundo em pouco tempo. E ao mesmo tempo me assustava com a postura dos nossos políticos, brincando de “Pollyana” e acreditando que teriamos um “escudo mágico” no nosso país, impossibilitando ela de chegar aqui…….e chegou!
Quem conhece os EUA sabe que a Flórida não e ponto de referencia para o “american way of life” existente, devido a excessiva imigração latina la existente. Os padrões lá são diferentes, mas mesmo assim, a coisa por lá não está nada “boa”.
Miami, por exemplo, em nada perde para o Rio de Janeiro. South Beach e Copacabana parecem irmãs gêmeas, com a mesma quantidade de traficantes à noite e trombadinhas durante o dia. Ví mais gente pedindo dinheiro nos estacionamentos dos “Malls” do que na rodoviária do Rio de Janeiro.
E em que essa crise pode nos afetar, profissinais psi? ……Existem zilhões de possibilidades.
Como profissionais liberais de uma área que não é considerada, infelizmente, como “básica”, nós sabemos onde os cortes dos orcamentos familiares serão feitos não é? Com a alta do dólar as importações vão diminuir, empresas vão demitir, dívidas não serão pagas e o comércio será penalizado. Mais demissoes……o efeito cascata e inevitável e não podemos fechar os olhos e achar que tudo se resolverá com apenas a venda de alguns dólares em leilão pelo nosso Banco Central.
Mas…em tempos de eleições, e inviável falar em crise, afinal, continuemos vivendo no nosso mudo de Alice ate que a maravilha acabe, e o livro seja fechado, com a linda frase “e eles viveram felizes para sempre”.
Se nem mesmo o preço do petróleo consegue ficar parado, nem mesmo o dólar está estável…..acho que vou fazer como no velho faroeste americano e guardar minhas economias em “ouro”, debaixo do meu colchão…..
Sobre os instrumentos da psicologia e seus usos – Por Denise Dechamps
Participei no mês de julho no Rio de Janeiro, da II Mostra Regional de Práticas em Psicologia promovido pelo CRP, evento que julgo ser importantíssimo como um lugar onde podemos ter um bom panorama do que está sendo feito e pensado pelos psicólogos que trabalham por aqui. Havia participado ano passado da I Mostra e vi um crescimento nessa desse ano, bastante considerável.
Dentro desse evento, participei de uma oficina de ética promovida por conselheiros do CRP 05 que corresponde a essa região. O exercício que foi passado era simples, reunidos em pequenos grupos nos foi passada a tarefa de redigir um laudo solicitado por uma mãe por conta de seu filho ter sofrido abuso por parte do pai. Esse era o comando e a partir disso o grupo reuniu-se para executar tal tarefa.
Pergunto: o que vc faria? Como seria a redação desse laudo? Pense e reflita, que apontamentos poderia fazer. Já pensou? Como pode ser feito então?
Enquanto você pensa vamos conversar um pouco sobre o lugar que podemos ocupar e que instrumentos de poder são esses que somos capacitados para exercitar. Pensemos um pouco também se existe na função da psicologia algum lugar que possa ser realmente neutro. Se a análise puramente técnica proposta por algumas vertentes, encontrará lugar no cotidiano da prática do profissional psicólogo. Pense nisso, reflita, monte sua opinião a respeito. Que lugar é esse que ocupamos, quer seja na clínica, na empresa enquanto treinamento ou mesmo selecionando funcionários, na escola, no Detran colaborando para decidir sobre a possibilidade de um cidadão dirigir um automóvel ou não ou em qualquer outra área onde atuamos? Podemos dizer que falamos de um lugar neutro, não contaminado por variáveis ideológicas?
Mais do que defender qualquer opinião a esse respeito, escrevo esse texto na tentativa de convidar a cada estudante ou profissional que realize essa reflexão a cada nova empreitada em sua atuação. Que ao atuar leve sempre isso em conta, que ocupamos quer queiramos ou não, saibamos disso ou não, um lugar onde algum poder normativo é exercido.
Mas, voltemos ao exercício da oficina. Já pensou? Redigiu seu laudo? O que disse nele?
Então vejamos, de cara podemos ver que essa tarefa como foi solicitada é impossível de ser realizada. Como utilizar um instrumento de poder de tal magnitude sem ao menos averiguar com rigor e zelo a procedência dessa queixa? Falado assim parece mesmo um absurdo não é mesmo? Porém fomos informados que onde o CRP mais gasta tempo no Conselho de Ética julgando os processos que sofreram os profissionais é justamente nesse ponto. Com que facilidade emitem laudos sem o menor compromisso com a pesquisa da queixa e o olhar para a toda a situação que envolve aquela denúncia. Pasmem, é verdade e os dados são estarrecedores.
Emitimos eu e meu grupo um documento onde dizíamos que no momento não era possível o laudo solicitado e que a pedido do responsável daríamos início a todo um processo para averiguar as condições dessa família e da criança em relação a queixa trazida pela mãe. A coordenação riu muito das minhas colocações em relação a tarefa, porque logo de início eu brinquei dizendo que eu não assinaria nada daquilo que havia sido solicitado.
Situação corriqueira? Talvez nem tanto, mas também nada tão inusitada.
Sim, temos em nossas mãos um poder de possibilitar um caminho novo para algumas dinâmicas e temos também muitas vezes, por uso errado dessas ferramentas, o poder de trazer mais dor e mesmo destruição para os que nos procuram. Pensar e refletir sobre isso diariamente, a cada nova atuação é uma tarefa que faz parte do nosso ofício.
Muito há o que se falar sobre o tema. Ética e comprometimento e em qual é a nossa função e o quanto conseguiremos mantê-la e entendê-la apenas como uma técnica asséptica e desvinculada de toda uma leitura de uma realidade que nos cerca e muitas vezes choca.
Pensar o mundo e pensar esse sujeito nesse mundo se constitui uma tarefa fundamental para todo o campo psi. Se em alguns aspectos esse saber e ferramentas só se constroi a partir do coletivo, muitas vezes sua utilização terá que ser avaliada dentro da perspectiva da dupla que a ele recorre, o paciente/terapeuta, testando/aplicador do teste, candidato/selecionador, criança problema/psicólogo escolar etc. Que lugar é esse do qual estaremos verificando? Que neutralidade é possível dentro de nossas análises? Que contexto se inscreve o que estamos avaliando? E tantas outras questões que necessariamente estarão presentes.
Pensar em ética e sua aplicação em um primeiro olhar parece algo muito fácil, mas não é, torna-se em nossa prática a parte onde nos revemos a todo instante, onde o humano do outro e a nossa própria humanidade se atravessam construindo um belo trabalho ou uma prática de opressão.
No meio do caminho tem sempre uma pedra. O que podemos fazer com ela? Depende de uma leitura onde o compromisso seja o que o outro pode construir e o que deseja fazer dela.
Agosto 2008
Denise Deschamps
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