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Sobre os instrumentos da psicologia e seus usos – Por Denise Dechamps

 

Participei no mês de julho no Rio de Janeiro, da II Mostra Regional de Práticas em Psicologia promovido pelo CRP, evento que julgo ser importantíssimo como um lugar onde podemos ter um bom panorama do que está sendo feito e pensado pelos psicólogos que trabalham por aqui. Havia participado ano passado da I Mostra e vi um crescimento nessa desse ano, bastante considerável.

Dentro desse evento, participei de uma oficina de ética promovida por conselheiros do CRP 05 que corresponde a essa região. O exercício que foi passado era simples, reunidos em pequenos grupos nos foi passada a tarefa de redigir um laudo solicitado por uma mãe por conta de seu filho ter sofrido abuso por parte do pai. Esse era o comando e a partir disso o grupo reuniu-se para executar tal tarefa.

Pergunto: o que vc faria? Como seria a redação desse laudo? Pense e reflita, que apontamentos poderia fazer. Já pensou? Como pode ser feito então?

Enquanto você pensa vamos conversar um pouco sobre o lugar que podemos ocupar e que instrumentos de poder são esses que somos capacitados para exercitar. Pensemos um pouco também se existe na função da psicologia algum lugar que possa ser realmente neutro. Se a análise puramente técnica proposta por algumas vertentes, encontrará lugar no cotidiano da prática do profissional psicólogo. Pense nisso, reflita, monte sua opinião a respeito. Que lugar é esse que ocupamos, quer seja na clínica, na empresa enquanto treinamento ou mesmo selecionando funcionários, na escola, no Detran colaborando para decidir sobre a possibilidade de um cidadão dirigir um automóvel ou não ou em qualquer outra área onde atuamos? Podemos dizer que falamos de um lugar neutro, não contaminado por variáveis ideológicas?

Mais do que defender qualquer opinião a esse respeito, escrevo esse texto na tentativa de convidar a cada estudante ou profissional que realize essa reflexão a cada nova empreitada em sua atuação. Que ao atuar leve sempre isso em conta, que ocupamos quer queiramos ou não, saibamos disso ou não, um lugar onde algum poder normativo é exercido.

Mas, voltemos ao exercício da oficina. Já pensou? Redigiu seu laudo? O que disse nele?

Então vejamos, de cara podemos ver que essa tarefa como foi solicitada é impossível de ser realizada. Como utilizar um instrumento de poder de tal magnitude sem ao menos averiguar com rigor e zelo a procedência dessa queixa? Falado assim parece mesmo um absurdo não é mesmo? Porém fomos informados que onde o CRP mais gasta tempo no Conselho de Ética julgando os processos que sofreram os profissionais é justamente nesse ponto. Com que facilidade emitem laudos sem o menor compromisso com a pesquisa da queixa e o olhar para a toda a situação que envolve aquela denúncia. Pasmem, é verdade e os dados são estarrecedores.

Emitimos eu e meu grupo um documento onde dizíamos que no momento não era possível o laudo solicitado e que a pedido do responsável daríamos início a todo um processo para averiguar as condições dessa família e da criança em relação a queixa trazida pela mãe. A coordenação riu muito das minhas colocações em relação a tarefa, porque logo de início eu brinquei dizendo que eu não assinaria nada daquilo que havia sido solicitado.

Situação corriqueira? Talvez nem tanto, mas também nada tão inusitada.

Sim, temos em nossas mãos um poder de possibilitar um caminho novo para algumas dinâmicas e temos também muitas vezes, por uso errado dessas ferramentas, o poder de trazer mais dor e mesmo destruição para os que nos procuram. Pensar e refletir sobre isso diariamente, a cada nova atuação é uma tarefa que faz parte do nosso ofício.

Muito há o que se falar sobre o tema. Ética e comprometimento e em qual é a nossa função e o quanto conseguiremos mantê-la e entendê-la apenas como uma técnica asséptica e desvinculada de toda uma leitura de uma realidade que nos cerca e muitas vezes choca.

Pensar o mundo e pensar esse sujeito nesse mundo se constitui uma tarefa fundamental para todo o campo psi. Se em alguns aspectos esse saber e ferramentas só se constroi a partir do coletivo, muitas vezes sua utilização terá que ser avaliada dentro da perspectiva da dupla que a ele recorre, o paciente/terapeuta, testando/aplicador do teste, candidato/selecionador, criança problema/psicólogo escolar etc. Que lugar é esse do qual estaremos verificando? Que neutralidade é possível dentro de nossas análises? Que contexto se inscreve o que estamos avaliando? E tantas outras questões que necessariamente estarão presentes.

Pensar em ética e sua aplicação em um primeiro olhar parece algo muito fácil, mas não é, torna-se em nossa prática a parte onde nos revemos a todo instante, onde o humano do outro e a nossa própria humanidade se atravessam construindo um belo trabalho ou uma prática de opressão.

No meio do caminho tem sempre uma pedra. O que podemos fazer com ela? Depende de uma leitura onde o compromisso seja o que o outro pode construir e o que deseja fazer dela.

 

Agosto 2008

 

Denise Deschamps

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August 16, 2008 Posted by | Psicologia | 1 Comment