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Desabafo – Por Eduardo J. S. Honorato

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Dias e dias de chuva e nada acontecia em Florianópolis. A cidade “ ferveu” no Folianópolis e todo mundo dançou “arreia” com Ivete Sangalo debaixo de chuva. Os hoteis estavam lotados e a cidade estava toda animada. Asa de Águia e muito axé…..e muita água….ninguem esperava pelo que estava por vir….

Domingo continua chuvoso e está  tão chato trabalhar ou fazer qualquer coisa. A casa tá úmida e voce começa a se incomodar com os pés e barras das calças meio molhadas. Algo meio estranho com essa chuva. Algumas notícias difusas na tv, comentários no rádio mas nada muito concreto…..

Você começa a perceber movimentos na mídia e as notícias aumentam. Voce percebe que está ficando feio e se aproximando. A barreira caí no meio de Floripa e todos levam um susto. A mídia nacional ainda não deu muita importância, com excessão de alguns canais. Continua chovendo e você fica mais e mais preocupado. Começa a ligar para alguns amigos e se preocupar com outros. Em algumas horas várias estradas desabaram e muita gente tá morrendo. Voce começa a sentir a falta de água e todo mundo preocupado com as cidades do norte.dscn1498

A coisa foge de controle e Ana Maria Braga começa a alertar a todos. Voce já está se mobilizando pra comprar medicamentos e doar roupas. Faz doações e mobiliza as pessoas na internet. Mesmo assim você continua incomodado, e tem mais tragédia na televisão. Tem sinal de SOS e todo mundo “ajudando”, mas algo diz que não está certo…que dá pra fazer mais um pouco.

Você lembra que o brasileiro é sempre famoso por ser solidário, mas porque não extender um pouco mais? Nas enchentes nos EUA nós nos sensibilizamos  aqui e mandamos dinheiro. E quando é na NOSSA casa, a gente vai fazer a mesma coisa? Eles conseguiram revolucionar nas eleições, e nós podemos revolucionar em exemplo histórico de solidariedade.!!

dscn1507Aí voce liga a TV e lembra do Filme Independence Day….e repara que você está do lado de uma situação igual a do cinema, que voce vibrou e torceu pelos heróis, e que achou um excelente roteiro. É hora então de levantar a bunda da cadeira e sair da Internet. Separe suas coisas e promova um desapego. Dôe não somente aquilo que voce NAO quer, mas coisas que voce QUER também, mas PODE DIVIDIR.

Isso é solidariedade. Separe mais coisas para doar, procure os hemocentros, veja se as igrejas e associações precisam de voluntários. Transfira nem que seja 10 ou 20 reais…. Arrecadem roupas em shoppings. Desde brinquedos para crianças até oculos escuros. Além de COMIDA, ÁGUA e AR, eles vão precisar de TUDO. Imagine você amanhecer de uma hora pra outra SEM ESCOVAS DE DENTES, SEM ROUPA, sem ter onde ir ou fazer, e SEM UM PARENTE. Além de não ter NADA mais, sem direção, você ainda sofre com a dor da perda de um familiar. Imagine….se possível, a DOR que essas milhares de pessoas estão sentindo. Se pudermos dividir essa dor por todos nós, eles não vão sofrer tanto.

Se DÔE, mas faça com vontade, pois TODA ajuda será benvinda. Se você está na região, pegue seu carro e vá para uma das localidades e ajude na limpeza das ruas, na separação de mantimentos, nas entregas de comida. Se é da área de saúde, troque seu sábado de descanso, por um sábado de AMOR AO OUTRO. Faça isso, que nos encontramos por lá!atgaaaaefrookgn-7tli96xpdj4lyuk_qbo9_437lltjd8fbey7kibogeld-fbqzmwmqzkrzvujl0e09rltk9ul345oaajtu9vdbwoujmgy6zay_np_chr35yxqjfq1

                E aí eu pergunto…..a vida que imita a arte ou a arte que previu a vida? ? ? ? ?

Não posso deixar de complementar este texto, depois desde “belíssimo” Sãbado que tive. Acordei cedo, decidido a ir a Itajaí e trabalhar como voluntário. Consegui convencer alguns familiares e pegamos a estrada cedo. Não sabia como reagiríamos ao chegar lá.

No caminho me peguei pensando sobre como somos preparados para lidar com a dor do “Outro” na clínica, e como seria possível fazer isso em uma situação de catástrofe como essa. Lembrei da “neutralidade” profissional, e que ser “neutro” não é jamais deixar de sentir pela dor do Outro, mas sim, ter uma postura que seja benéfica a ele. E era disso que aquelas pessoas estavam precisando….de pessoas para AJUDAR e não para lamuriarem ou terem “pena”.

Anos de faculdade ou experiência, seja pessoal ou profissional, não podem te preparar psicologicamente para uma situação dessas. Logo na estrada você já percebe a movimentação da polícia e do exército, coordenando e tentando manter a ordem no “caos”. A cidade parece estar abandonada. Muitas casas sem energia elétrica e sem AGUA. O comércio está todo fechado e parece um filme de cidade “fantasma”. Você então percebe que seu dinheiro, seus cartões ou qualquer bem não tem o MENOR valor alí. Você só tem VOCÊ, como pessoa, para oferecer como ajuda.

dscn1515Em toda a cidade, pessoas passam de bicicleta com garrafas de água, motos carregando colchões. Crianças com sacolas de comida e roupa de cama. As filas são QUILOMÉTRICAS  e as pessoas, sem distinção de classe social, se organizam para receberem os donativos. As marcas de água e lama nos muros chegam a quase 2 metros de altura e é impossível imaginar que aquilo alí foi tomado por uma “tsunami” de lama há alguns dias. Ainda tem muito barro na cidade, muito lixo nas ruas. O supermercado, que fora saqueado há alguns dias, está destruído. Algumas coisas estão “fora do lugar”e não fazem “sentido”. Blocos de concreto longe do ponto de origem. Carros cheios de lama em locais “proibidos”. Muros de concreto a metros de onde estavam.  É um cenário “pós-guerra” onde o inimigo “mãe natureza” chegou de surpresa, de mansinho.

São vários os pontos de encontro de voluntários espalhados pela cidade e você tem que procurar um o mais rápido possível. Chegamos a um local que parecia um centro de convenções. Do lado de fora, muitos caminhões do exército, caminhões de empresas privadas. O cenário “choca” a primeira vista, mas você precisa lembrar dos milhares de desabrigados que estão nas filas quilométricas esperando por água potável, água para tomar banho e algo para comer. Não há supermercados, padarias, lanchonetes…nada aberto. Eles dependem da SOLIDARIEDADE para sobreviverem e reconstruir suas vidas.

Muitos voluntários chegam de outras cidades e há cadastramento e organização dentro do “caos”. A polícia e o exército organizam tudo para que nada seja desperdiçado ou utilizado indevidamente. Ninguém alí se conhece e a única coisa que temos em comum é o desejo de ajudar aas vítimas.  Sem muita coordenação, você precisa procurar um ponto para ajudar. Há triagem de medicamentos, separação de roupas, sapatos, utensilios domesticos, material de limpeza. Todos os donativos recebidos são separados por área e tipo e depois são “ensacados” em pequenos “kits”. 

A todo momento novos caminhões chegam e as pessoas fazem aquela famosa “fila” para descarregar. Você olha pro lado e vê mulheres, crianças, adolescentes….pessoas de todas as raças, classes sociais….todas carregando peso e doando o seu dia para ajudar desconhecidos. Haviam senhoras bem idosas, sentadinhas em cadeiras, fazendo “mini-kits” com absorventes, pasta de dente, escova, com todo o cuidado e carinho do mundo, como se fossem presentes de natal.

Todos têm identificação, mas nessas horas, “ninguém tem nome”, todos são “amigos”. Você conversa com as pessoas do seu lado e percebe que muitos alí também são VITIMAS da enchente, e como não há água potável em casa, e nada pode ser feito no local, juntaram o restinho das forças que tinham pra auxiliar os demais, enquanto esperam a normalização da situação.

O corpo têm um limite, e pede pra parar. Há uma grande mobilização de voluntários, cuidando dos voluntários, garantindo que todos se mantenham hidratados e alimentados. Uma cozinha “quase industrial” foi montada para alimentar as centenas de pessoas alí presentes. Há muito material químico no local (Cal, cimento, material de limpeza,etc) e todo cuidado é pouco. Donativos não param de chegar e são anunciados em um alto falante, e todos comemoram, como se estivéssemos em um estádio de futebol e alguem fizesse um GOL. Gol da seleção brasileira! Vários eram os voluntários que, mesmo que inconscientemente, vestiram a MESMA roupa: A CAMISA DA SELEÇÃO BRASILEIRA, demonstrando um patriotismo acima de tudo, com muito amor ao próximo.

A minha experiência clínica e pessoal me mostrou que em todo sofrimento pode haver uma forma de aprendizado, e só temos que elaborar o luto e seguir em frente. Talvez esse seja o NOSSO momento, de dentro desta “dor” retirarmos algo de positivo e resgatarmos algo que está esquecido há alguns: NOSSO PATRIOTISMO!.

Ser patriota não é vestir a camisa da seleção e cantar o hino nos dias de jogos. Ser patriota é mostrar amor pela sua nação, e fazer de TUDO para ajudar ao próximo. A história nos mostra que inúmeras nações passaram por tragédias, das mais variadas, causadas ou não pelo homem, e com um sentimento forte de patriotismo, conseguiram se ajudar e atravessar crises piores. Vamos então aprender com esse exemplo e brigar pelo nosso país. Além ajudar, podemos aprender sobre TRANSPARÊNCIA. No site oficial do incidente (www.desastre.sc.gov.br) já podemos acompanhar o recebimento dos donativos e fiscalizar as contas. VAMOS APRENDER A SERMOS TRANSPARENTES COM O DINHEIRO PUBLICO.

floripa1  Portanto, se você está em outra região do país e não pode passar por essa experiência, se DOE de outras maneiras. Arrecadem mais donativos, mais dinheiro, mais campanhas…..pois esta foi apenas UMA das várias cidades atingidas e muito mais gente precisa de você.

Acesse o site www.desastre.sc.gov.br e veja como voce pode ajudar MAIS

Gostaria ainda de ressaltar que, o TURISMO é uma das primordiais fontes de renda na região catarinense. Vários municípios NÃO ATINGIDOS podem sofrer consequências, a longo prazo, com a diminuição do turismo na Região. Portanto, se você pretendia, ou pretende, vir para a BELA E SANTA CATARINA, não cancele sua viagem, pois os municípios não atingidos estão esperando por VOCÊS. floripa

Para os “baladeiros” de plantão, informo que Floripa está com MUITO SOL, praias “bombando” e o verão JÁ COMEÇOU!!!

Coloquei algumas fotos no meu album do orkut. Meu objetivo é apenas que as pessoas vejam a situação com outros olhos, e percebam que Santa Catarina não é no Oriente, na África ou  o Haiti……é DO SEU LADO, e você PODE fazer um pouco mais.

           Fica aqui meu desabafo e relato da experiência….o trabalho continua!!! 

Eduardo J. S. Honorato

Psicólogo e Psicanalista

http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=10025505058382138918

 

 

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November 29, 2008 Posted by | Variedades | 2 Comments

CYBERPSICOLOGIA, PSICOLOGIA CIBERNETICA, PSICOLOGIA E INFORMATICA, PSICOLOGIA DIGITAL…..QUE BICHO É ESSE? – Por Eduardo J. S. Honorato

 

article00E comum hoje sermos atravessados por ondas de informações, vindas de todos os lados, sem termos capacidade para absorção. Falamos em siglas e as repetimos com tanta freqüência que muitas vezes nem sabemos mais o significado original daquele termo. Palavras de outros idiomas são fagocitadas pela nossa língua e novos termos surgem a cada dia, principalmente na tecnologia de comunicação & informática.

Faça a seguinte pergunta a 5 pessoas: “O que é a Internet” ?

Se a pergunta for direcionada a adolescentes, estes lhe darão respostas técnicas das mais variadas, citando sempre programas, jogos e utilidades. Se perguntarmos a pessoas de uma faixa etária mais avançada, as respostas serão mais variadas. E se perguntarmos a 5 Psicólogos ou Psicanalistas? Perceberemos então que não há um consenso, pois a resposta não será nem tão técnica nem tão abrangente, ou, não relacionada à sua profissão.

Isso reflete algo bastante recente e ainda pouco explorado: o mundo virtual. Poucos são os pesquisadores das áreas psi que se interessam pelo mundo virtual e suas peculiaridades. Alguns bravos profissionais pesquisam sim, mas a produção é pequena e lenta frente à alta mutabilidade deste “mundo” e sua constante evolução. Eu arriscaria a dizer que o virtual evolui em uma velocidade de conexão à cabo e as pesquisas ainda na velocidade da antiga conexão discada (via Telefone).

O que a Psicologia tem a ver com computadores, bytes, Internet , P2P, Softwares etc?

Essa é uma pergunta que faço desde 1997, quando comecei a utilizar a Internet com maior intensidade.  Do uso surgiu um interesse maior, e deste interesse, a problematização de alguns aspectos, que dariam origem a pesquisas.

Algo que foi criado como artefato militar e que passou, depois de quase 30 anos, a ser objeto de pesquisa, depois interesse, depois diversão e hoje, necessidade básica. Tão necessário quanto o telefone ou a televisão.

No final dos anos 90 alguns profissionais e estudantes de Psicologia já pesquisavam sobre o assunto. Foram pioneiros no Brasil, onde o pouco que se sabia sobre o tema era oriundo de outros paises. Oliver Zancul Prado, Elisa Sayeg, Márcia Homem de Mello, Ivelise Fontin, Fabiana Maiorino, são alguns dos quais me recordo, em um pequeno congresso organizado em São Paulo, em 2001.

Muito se falava sobre Internet, seus impactos, dependência, mas pouco se conseguia pesquisar, seja por falta de financiamento, seja por falta de credibilidade de algumas instituições e pesquisadores.

Quase 10 anos se passaram, e alguns profissionais e estudantes ainda insistem em dizer “Isso não é Psicologia….” Mas…o que é Psicologia então? Independente da escola utilizada, todas tem um objeto de estudo em comum: o comportamento humano.

A explicação dada para esses fenômenos são diferentes, mas o objeto de estudo é sempre o mesmo. Então, um novo plano sociabilizador, uma nova forma de interação, utilizada em massa pelo homem, não mereceria melhor atenção dos profissionais psi?

Temos nitidamente uma nova forma de comunicação e interação com um alto carater psicossocial envolvido. A realidade criada por este novo meio de comunicação, que manifesta forma específica de socialização, traz no seu bojo transformações de relações, de encontros, de possibilidades afetivas e cognitivas.  Até pouco tempo as relações sociais se restringiam ao campo do “corpo presente”, e hoje este corpo se desloca, transcende a corporeidade, para fundar um plano virtual de encontros.

Entender a Internet através da psicologia nada mais é do que uma tentativa de melhor entender o comportamento do indivíduo enquanto ser social, e talvez, contribuir para o entendimento do ser humano como um novo ser social-virtual.

Uma questão que deixo aberta para reflexao dos profissionais “psi” é: Quantos de nós estão preparados para lidar com esse novo plano sociabilizador? Quantos de nós estão inteirados com os conhecimentos tecnológicos da nossa atualidade?

Espero que essa reflexão possa ser um incentivo para maiores tentativas de entender o virtual, enquanto plano sociabilizador, que traz impactos psico-sociais, e consequentemente, melhor qualificação dos nossos profissionais.

 Eduardo J. S. Honorato

 

 

November 9, 2008 Posted by | Psicologia | 4 Comments

O ato de viver como a esperança – Por Denise Deschamps

atitude“…a esperança é, na sua essência, um horizonte que se descortina, um apelo que nos convida a caminhar e a ir sempre adiante pelos caminhos da vida…” (Zeferino Rocha – “A Esperança não é esperar, é caminhar” in Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental Vol X/2007)

 

Aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, no mês de outubro, uma jornada de psicanálise cujo tema central era “Esperança”, promovida pela Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro(SPCRJ). Tema intrigante se pensarmos em psicanálise e mais ainda se pensarmos na atualidade ou a chamada pós-modernidade. Esperança que lembra sempre o ato de espera, passividade, em uma sociedade que convida à ação imediata, ao prazer instantâneo, à escolha sem perda.

Começa a jornada, e, logo  na abertura, somos apresentados a uma nova perspectiva para essa palavra esperança, não mais como espera passiva, mas sim como o próprio ato que faz o caminho. Esperança não é esperar, nem olhar para o horizonte, mas aquilo que faz com que possamos dar cada novo passo em direção ao amanhã. A esperança está no hoje então, não mais no futuro próximo ou longínquo. Se hoje não pudermos vislumbrar o que temos a esperança de construir, então não é esperança, é ilusão. Distinguir uma coisa da outra faz uma enorme diferença no ato da escolha. A esperança nunca será estéril, mas a ilusão sim, esta última se planta em terreno das fantasias que não passarão pelo teste de realidade ou cairão no primeiro obstáculo, desinvestimento inevitável se fará pelo caminho daquilo que não se apóia no mais legítimo desejo que nomearemos então de esperança.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”(Oscar Wilde) citado em um dos trabalhos apresentados. Existir sem esperança lança-nos direto na desesperança, no ato inútil, no investimento destituído de libido, cria então o caminho propício àquilo que hoje permeia as relações sociais, naquilo que têm de mais íntimo e que habita o cotidiano, assim como também habita  em muito do que fala de ideal de ego, conceito esse muito bem lembrado nesse encontro. Vejamos que ele se diferencia de ego ideal, esse sim aferrado a ilusões sem chão de realidade.  Necessário resgatar esse conceito tão importante em psicanálise, e que hoje se faz quase que uma saída última diante do desamparo que vivemos frente a uma realidade sem ideais ou sonhos possíveis. Ideal de ego, tudo aquilo que construímos em nome dessa esperança, que construímos através de outro conceito tão fundamental em psicanálise, o da sublimação.

“Ideologia, eu quero uma para viver” já cantava o poeta Cazuza.

Em outro trabalho que foi apresentado com o tema “O desejo nunca se realiza da mesma forma que a esperança nunca morre”(Maria Helena Mossé e Maria Lúcia Fradinho) encontraremos a seguinte passagem: “Esperança, sentimento primordial, intimamente entrelaçado ao desejo”.

Assim como a tristeza básica existente no ato de vida tem sido varrida das nossas possibilidades, a esperança tem sido uma palavra atacada e reduzida a algo muito menor do que pode trazer contida enquanto potência criativa. Voltamos a dizer, não como espera passiva, mas como motor do desejo que se alimenta nele e o realimenta na execução de passos que mobilizam o ato da vida naquilo que ela tem de mais belo, seus ideais e sua ética, beleza rara que o humano constrói.

Resgatar na própria concepção da psicanálise aquilo que seu fundador a inundou, na crença em laços afetivos e ideais coletivos que, quem sabe, um dia, construirão um mundo melhor e menos desigual ou repressivo no sentido do formulador da insuportável dor.

Ainda leremos no trabalho citado acima: “Para Freud, o fulgor da criação encontra seu ponto de emergência inicial no sexual. À capacidade plástica da pulsão de modificar seu objetivo originário sexual por um outro não-sexual, sem perder por isso o essencial de sua intensidade, ele dá o nome de sublimação”.

No caminho do desejo, muitas vezes devemos evitar o atalho do amortecer a dor de imediato, naquilo que hoje se constitui quase que em uma única possibilidade, o da “geração Prozac”(e tantas outras “poções mágicas”). Outro trabalho apresentado, com o título: “Esperança e desilusão – Uma visão psicanalítica”(Esther Perelberg Kullock) em determinado ponto nos remeterá a uma reflexão tão fundamental para os nossos dias, qual seja:

“A aflição demanda testemunho, o simulacro demanda a clínica do real. Há que se recolher fragmentos de experiência em que a pessoa/simulacro possa experimentar sofrimento: é o acesso ao sofrimento que lhe devolve a humanidade. São quadros que temos que manter discriminados, que demandam intervenções distintas por parte do psicanalista”. (visto em Safra)

 

1 -“Só a leve esperança em toda a vida              

Disfarça a pena de viver, mais nada;                       

Nem é mais a existência, resumida,                        

Que uma longa esperança malograda.                   

 

 

  2 – O eterno sonho da alma desterrada,

       Sonho que a traz ansiosa e embevecida

       É uma hora feliz, sempre adiada

       E que não chega nunca em toda vida.

 

3 – Essa felicidade que supomos                      

    Árvore milagrosa que sonhamos                     

  Toda arreada de dourados pomos,  

              

4 – Existe, sim: mas nós não a alcançamos

  Porque está sempre apenas onde a pomos

  E nunca a pomos onde nós estamos.

(Vicente de Carvalho, Poemas e Canções – citado pela autora acima mencionada)

 

Em época de estabelecimento de relações perversas, que atravessam desde o procurado amor de parceria, até as mais complexas instituições, resgatar a ética contida no sofrimento do crescimento, talvez seja uma das saídas possíveis.

 

Esperança essa  que se constituirá   enquanto potência de vida, que traça o caminho do tecido afetivo que dá sentido à vida, que a preenche em cores, formas, cheiros, textura, temperatura e a tudo mais que fala daquilo que, em última análise, é o que faz com que nos levantemos a cada dia que nasce: nossos vínculos com outros seres, nossa capacidade de com eles construir algo que nos una, e que erga  tudo aquilo que costumamos chamar de humanidade.

November 5, 2008 Posted by | Psicologia | 1 Comment