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Filhos e o traçado do afeto – Por Denise Deschamps

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Nessa última semana, fomos levados a pensar nessa relação de afeto que se inaugura com a chegada de um filho, esses pequeninos que invadem nossas vidas, nos levando a revisitar nosso passado e ao mesmo tempo trazendo uma dimensão completamente modificada de tempo. Tempo passado que é perdoado, tempo futuro que ganha contornos de sonhos aumentados e receios em relação a nossa capacidade de atingi-lo. Um filho nos traz a imortalidade(nome de família) e ao mesmo tempo nos define para sempre como mortais que somos. Seja em que idade for que isso aconteça é um despedir-se da grata imortalidade juvenil. Nos damos conta rapidamente disso ao olharmos para aquele ser ali tão desprotegido em sua fragilidade em desenvolvimento. Estamos proibidos de morrer, a vida passa a ter um sentido duplo, aumentado, redefinido. Vamos aqui nesse texto tomar essas emoções em seus aspectos mais construtivos e progressivos, sabemos que outras dimensões mais complexas são acordadas pela inauguração desses laços de maternidade e paternidade, mas isso ficará para um outro momento, em outro olhar complementar e não excludente desse que abordaremos aqui nesse texto.

Eles chegam como diria Freud como “sua majestade o bebê”, nos impõem suas necessidades, nos ensinam a ouvi-los, nos acolhem em nossas desmedidas emoções. Como nos diz Luis Cláudio Figueiredo: “De qualquer forma, mantém-se a hipótese de que, antes de mais nada, um bebê é o suporte para as transferências de seus pais, não apenas um objeto de seus cuidados desinteressados, e de que é a partir desta condição que uma subjetividade se organiza, na forma de uma resposta à transferência”.(Sugerimos a leitura completa do texto no link A)

Hoje queremos falar desses pais, dessa transferência, desse momento que se inaugura no sujeito ao realizar sua maternidade e paternidade. Pensamos ser esse um tema que se torna cada vez mais fundamental ao falarmos de psicanálise, tempos atuais, novas constituições de família, pós-modernidade com esse discurso fatalista em relação à lei paterna que vem se construindo em torno das mudanças pelas quais passa a sociedade em relação à organização familiar.(sugerimos leitura da entrevista com Elisabeth Roudinesco contida no link B)

Com certeza esse pai se encontra bastante modificado em sua função, mas isso não é necessariamente algo de ruim. Como nos diz Elisabeth Roudinesco na entrevista citada(link B): “O medo da perda da autoridade paternal existe desde quando a família surgiu. Não penso que o pai tenha perdido toda a sua autoridade; ele perdeu apenas aqueles poderes exorbitantes, ou seja, o direito de vida e morte sobre a mulher e os filhos, tudo aquilo que não se coadunava com os direitos e liberdades assegurados pela democracia. A autoridade paternal agora é compartilhada”.

Hoje muito graças aos questionamentos dos quais a psicanálise e sua capacidade transgressora participou ativamente, essa família se reconfigura, não mais baseada no casal como uma sentença para toda a vida(muitas vezes era morte em vida), mas como o caminho para laços afetivos amorosos e onde a felicidade é uma meta possível de ser buscada. Essa família repaginada encontra na presença dos filhos sua mais convicta certeza de permanência, segundo Roudinesco. Não interessa como ela se constitua, desde que se possa vivenciar os ares de liberdade que foram alcançados a duras penas. Baniu-se a hipocrisia como único caminho possível, e hoje as diferentes ordens familiares podem requerer todos os direitos frente à sociedade atual. Isso é bonito, emocionante, gratificante e libertador. Em última análise é o amor que vence, que passa a constituir-se enquanto requisito das relações familiares.

Haveria algo mais saudável que isso?

Então chega nessa família nova, nessas relações familiares modificadas, o novo ser, que chora, que ri que pede a construção do seu lugar frente ao mundo que habitará. Olha com curiosidade os rostos ávidos em reconhecer afetos naquele bebê que benevolente e plácido recebe cargas incomensuráveis de investimentos que saltam dos gestos, sorrisos, falas e olhares dos que o recebem, essa família que o acolhe e nele investe sem dó. Que estranho ser é esse que chega para cuidar de todo um grupo? Parece indefeso, desprotegido em tanta potência. Abre livros de história, álbuns de família, sem o menor constrangimento.

Ele chega! Majestoso, completo, trazendo na bagagem todo o futuro dos que o olham. E diz com força:- preciso de amor. Todo humano precisa de amor como combustível que alimentará seu psiquismo. Amor inteiro, sem mentiras, sem sacrifícios, amor doação que ensinará a busca pela felicidade ou os traçados da hipócrita infelicidade, ao cuidar de um bebê temos a chance de fazer novos laços com o que nos foi traçado até então e ao mesmo tempo damos a ele condições ou não de traçar caminhos para uma vida mais plena.

Ele sorri benevolente, alimenta o amor mais e mais, anjos que chegam para nos restabelecer a possibilidade de amar por inteiro, aquela muitas vezes perdida nas relações parentais que nos constituíram. Filhos, bebês, no fim nos devolvem a esperança. A possibilidade de fazer um mundo bem melhor. Que venha sua majestosa presença e que a ela rendamos nossas melhores e mais inteiras intenções. Eles nos devolvem isso com generosidade, nos trazem de presente o aprendizado do que seja o tal “amor incondicional” que, uma vez que nos toca, nos torna para sempre seres mais comprometidos com o mais belo da vida, com um Eros dominante.

“O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si…”(Lou Andreas Salomé)

Links:
A – http://www.estadosgerais.org/gruposvirtuais/figueiredo_luiz_Claudio-transferencias.shtml

B – http://www.estadosgerais.org/resenhas/roudinesco-entrevista.shtml

Ps: Querida amiga Denise,
O cansaço físico me impede de fazer muitas coisas, mas esse Eros que você menciona é o combustível da alma. É ele que me permite continuar, mesmo quando o corpo e a razão pedem para parar.
É claro que me emocionei com seu texto, quando já achava que todas as emoções e sentimentos já tinham se passado pelo meu psiquismo essa semana.
Só posso te agradecer imensamente pelo apoio, pelo “ouvido”, pelos conselhos e por estar sempre presente.
Quem dera se todos pudessem contar com uma verdadeira amizade como a sua…
bjs
Eduardo

March 1, 2009 Posted by | Psicologia | 1 Comment