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Crise do capital e psicologia

i112784Artigo original em: http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/edicoes/40/artigo133543-1.asp?o=r

De que maneira o sujeito é afetado pela angústia coletiva enfatizada pelas relações de trabalho e distribuição de riquezas e como o campo da psi pode ajudar neste momento

Por Denise Deschamps e Eduardo J. S. Honorato
Denise Deschamps é psicóloga com formação em Psicanálise, Socioanálise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos – “Ateliê de Emoções” – Psicólogos Associados; supervisora clínica em Psicanálise. Atua em consultório particular, no Rio de Janeiro.

Eduardo J. S. Honorato é graduado pela Ulbra-Manaus. É psicólogo Perito Examinador de Trânsito (UFSC) e Psicanalista. Atua em consultório particular em Manaus. Cursa especializações em Saúde Pública (UFSC) e Docência Superior (UGF). Contatos: https://eduhonorato.wordpress.com/ ou eduhonorato@ hotmail.com

O que é a “crise” que tantos falam atualmente? Este vocábulo adentrou a vida dos brasileiros nos últimos meses e, consequentemente, os nossos consultórios e locais de atuação profissional. Teria a Psicologia algo a dizer sobre o que se pensa atualmente em relação à crise do capital que agita nossa “aldeia global”? Fomos instigados por essa pergunta e ao analisarmos a questão, verificamos que há inúmeras perspectivas sob as quais a Psicologia teria como abordá-la. Escolhemos então uma, dentre várias outras, que poderiam ser construídas.

O mundo se agita preparando-se para o caos econômico, fatores estatísticos que aos olhos da prática da Psicologia ganharão contornos de angústia individual ou dos grupos. Os números caem sobre cabeças que na relação com eles produzem felicidade ou angústia. Como Freud já havia dito, enfatizam-se as tarefas humanas que serão sempre uma das nossas maiores fontes de gratificação ou sofrimento: o amor e o trabalho.

No efêmero nomeado por alguns teóricos como pós-modernidade, naquilo em que hoje o “ser” se amarra ao “ter”, aos símbolos de status e cidadania que se constroem pelo prestígio social, o pertencer a essa ou àquela classe, nos perguntamos: como sobreviver à angústia de aniquilamento ante ao mundo real que impõe hoje restrições ao projeto de vida de uma grande maioria? E como pensar isso em um país como o Brasil, onde a distribuição de renda é uma das mais injustas?

Parece que o “tubarão” chamado “acumulação de bens” nos ameaça de várias frentes. Seria a tal crise cíclica do capital já descrita por Karl Marx e Engels1? Estariam os mais aptos devoradores incorporando os menores investidores financeiros do planeta? O quanto disso nos tem sido propagado em concepções que adentram nosso imaginário, em nosso cotidiano? Fazer perguntas simples como essas poderão nos dar a dimensão do que tem a Psicologia a dizer sobre tudo isso.

Se você sente angústia e depressão, quem sabe procurar medicamento antidepressivo não seja o melhor caminho?

Pensar o mundo em que se vive, trabalha e ama pode ser um começo de mudanças possíveis. Para Karl Marx2, “o que é exato para os seres humanos com seu trabalho, é exato também para os seres humanos entre si”.

CONSTRUÇÃO DE ALICERCES

Entre capacitar o homem para a linha de produção e pensá-lo como construtor de seu meio, a Psicologia precisará, cada vez mais, problematizar sua prática e compor construções teóricas emprestando elementos de outras áreas de estudos. Tratará ao mesmo tempo o homem em seu meio ambiente cultural e dos instituintes dessa cultura. Do que é instituído como algo de aquisição de melhoria de vida e que se institui como modelo repressivo, causa dor, portanto, do adoecimento desse sujeito que forma e é formado pelo mundo em que atua.

“A PSICOLOGIA PRECISARÁ COMPOR CONSTRUÇÕES TEÓRICAS EMPRESTANDO ELEMENTOS DE OUTRAS ÁREAS DE ESTUDOS”

Muitas foram as escolas em Psicologia que tentaram entender o homem atrelado ao modo de produção, ligado ao que permeia seu mundo econômico, atravessado e sustentado por questões de ideologia. Pensamos esse homem como um ser social desde o momento de sua concepção. Antes mesmo de nascer, traz já marcado todo um imaginário que lhe impõe um lugar que é também coletivo. Nascer, viver e morrer, caminho singular de cada sujeito, que implica na construção de relações de vínculo com seu tempo econômico, político e ideológico.

Hoje a ciência que estuda a subjetividade se vê às voltas com aquilo que R. D. Laing já nomeava de “fatos da vida”, como algo que fala de uma subjetividade que pode ser encarada como construção do sujeito ou mesmo de toda malha que entrelaça o coletivo.

“Há cientistas incapazes de conceber que com seus métodos excluem o tipo de informação que não desejam, a fim de destacar o tipo de informação que desejam”3. Essa afirmação de Laing traz para nossa análise o fato de querer problematizar os instrumentos com os quais a Psicologia trabalhará seu objeto de estudo – o psiquismo – diante do momento atual, a crise contemporânea que atravessa um momento delicado relacionado com a distribuição de riquezas no mundo.

Quantos brasileiros não se sentiram amedrontados, ameaçados ou receosos ante a “crise” tão propagada pela imprensa nacional e mundial? Quantas vezes o tema “crise” adentrou em nossos consultórios desde setembro de 2008? Em um país com memória recente de inflação, períodos longos de recessão e planos econômicos mirabolantes, a “crise” atual traz em seu bojo questões não só atuais, mas fantasmas deixados por episódios anteriores ainda mais “elaborados” (ou digeridos).

Em que a Psicologia poderá se apresentar como um vetor dentro dessa conjuntura? De inúmeras formas, mas aqui abordaremos uma questão que lhe é sempre intrínseca e que muitos autores de correntes diferentes já se debruçaram para estudar a questão, como Michael Foucault, Herbert Marcuse, Adorno, Georges Canguilhem, th omaz Szasz, Franco Basaglia, dentre muitos outros nomes. Em análises diferentes, esses nomes nos remetem a especifi- cidade do estudo da Psicologia e o quanto ela tem de tendência ao que poderíamos chamar de “normalização”. (Canguilhem)

Em um momento em que suas ferramentas serão consideradas úteis para selecionar sujeitos mais dóceis para as linhas de produção e também justificar a exclusão de uma mão de obra excedente cada vez mais numerosa, também há, ao mesmo tempo, a insatisfação crescente do sujeito que vê as possibilidades daquilo que lhe foi vendido como gratificação e realização, sendo tomadas, dia após dia, em seus investimentos.

Como a Psicologia fará uma proposta de trabalho com essa angústia crescente no individual e no coletivo? Como trabalhará diante da angústia, da exclusão e do crescimento da massa de miseráveis? O que em seu discurso irá se aliar ao que se rebela a opressão e exploração? O que justificará isso com conceitos de normatização do psíquico? Toda prática do campo psi é atravessada por questões ideológicas, levadas ou não em consideração por esse profissional que atua.

PSICOLOGIA INTRÍNSECA

Se levarmos em conta a análise da conjuntura econômica aqui apresentada, veremos que ao campo psi cabe, mais uma vez, se pensar como ferramenta ou dispositivo de controle ou como caminho organizador da justa pressão social. Pensar sua prática como alheia a essa questão torna-se algo, a nosso ver, alienado e alienante da possibilidade de ser, na concepção integral que esse conceito traz e que é tão intrinsecamente relacionado à própria existência da Psicologia. Aqui, nos abstemos de discutir sua inserção epistemológica, embora saibamos que essa seria, também, uma discussão importante na abordagem desse tema. Mas, nesse artigo, pretendemos apenas sublinhar e convidar ao debate do atravessamento desse acontecimento que agita o coletivo com a prática da Psicologia no Brasil.

Pensando no indivíduo

O livro Cultura e Psicanálise traz ensaios de Herbert Marcuse (1889- 1979) e, dentre eles, o marxista se inspira na Psicanálise para rejeitar a noção ocidental de progresso como desenvolvimento das forças produtivas. Esta obra de Marcuse revela um pensador radical, rigoroso e criativo, preocupado em construir uma alternativa política ao mundo da mercadoria.

VEREMOS NA CLÍNICA O APARECIMENTO DE SINTOMAS DE PÂNICO E DEPRESSÃO CORRELACIONADOS À PERDA DE EMPREGO

A questão se apresenta muito mais complexa do que convicções políticas ou visão de mundo. Nesse sentido, a neutralidade buscada dos instrumentos do campo psi se verão pensados a partir tanto da sua construção quanto da utilização e possibilidades múltiplas de leitura. Pensar uma ciência neutra é hoje algo questionado, mesmo pelas linhas que tentam se adequar ao que conhecemos como “ciência dura”, tentando traçar uma similitude com as ciências naturais. Mesmo que não abordemos essas questões da epistemologia, teremos de pensar em uma prática que se compromete com um sujeito que sofre a partir de um contexto de opressão e exploração. Pensar uma ética profissional, atrelada a uma práxis que se constrói no esteio daquilo que nomeamos como subjetividade.

ENTRE O SINGULAR E O PLURAL

A Psicanálise há muitas décadas empresta sua leitura para pensar o homem a partir de uma cultura, problematizando sua relação com ela e dela com o homem. “Assim sendo, a Psicanálise pode ser considerada como fato científi- co, como acontecimento histórico-social, como ideologia em si mesma ou como integrante de uma ideologia. E isto é válido para todas e para cada uma de suas componentes: a terapêutica, a investigação e a teoria4”.

Poderemos supor inúmeras determinantes que se constituem naquilo que fala das metas sociais que se modificam a partir de contextos político-ideológicos e, principalmente, que esses se apoiam e ao mesmo tempo constroem tudo aquilo que entenderemos como ideologia, intrinsecamente ligada a esses ideais. Tomemos então agora, em outra perspectiva possível, a afirmativa freudiana: “os sentimentos sociais repousam em identificações com outras pessoas, na base de possuírem o mesmo ideal do ego”5.

Propomos pensar em um possível exemplo: supomos saber que, hoje, uma parte significativa de jovens, que tem acesso à graduação universitária, traz em seus projetos de futuro uma vida no exterior, fora do Brasil, tanto para continuidade de seus estudos quanto para a busca de mercado de trabalho mais promissor. Será que poderemos entender isso apenas a partir de uma análise individual? Ou esse desejo nasce e se apoia em uma leitura – mesmo que inconsciente – de todo um campo político, econômico e do ideário que os sustentam?

Indo a outro ponto mais extremo de angústia, poderemos questionar, em outro exemplo possível, um homem que se perdeu no alcoolismo, entendido apenas por uma explicação individual patologizada e “naturalizada” em diagnósticos de um sujeito doente. Ele poderia ser entendido por meio de uma análise dos assustadores índices sobre alcoolismo correlacionados com os números estatísticos de desempregados (não menos estarrecedores)?

Incluir esses “dados de realidade” naquilo que temos a oferecer como possibilidade de fortalecê-lo para lidar com seu mundo, até mesmo naquilo que o prepara para entender os números e índices bombardeados pela mídia em seu cotidiano que, normalmente, mais o assustam do que informam ou preparam-no em sua capacidade de elaboração e enfrentamento da questão.

Esse sujeito que sofre e se vê como “culpado”, “incompetente”, “despreparado” ou simplesmente doente, assustado procura o profissional do campo psi, e tudo isso comporá o quadro em que esse profissional atuará.

Veremos na clínica o aparecimento de sintomas de ansiedade, pânico e depressão correlacionados à perda de emprego, de poder aquisitivo, de possibilidade de manter filhos em determinado padrão educacional, social, dentre tantos outros fatores. Quadros psicossomáticos afastando a possibilidade de recuperação e representação desse sofrer.

Remeter isso a apenas padrões infantis e individuais, ou ler como incapacidade de adaptação, são leituras possíveis, mas com certeza não darão conta de integrar esse ser de uma maneira completa e saudável com o mundo em que vive, mundo esse, no momento, com diminuta capacidade de contemplar sua necessidade de trabalho.

Em última instância podemos supor uma Psicologia que não seja social? Pensar que refletir sobre isso não tenha importância na prática clínica, organizacional (recursos humanos), educacional, trânsito, dentre outros, é supor um homem capaz de um isolamento impensável em relação ao meio em que ama e trabalha.

A luta antimanicomial no Brasil e o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental há muito trouxe para dentro de seu campo reflexivo e mesmo da construção da sua prática, questões como essas. Não podemos pensar que não existam caminhos já construídos e trilhados, com boa base conceitual para analisar o momento.

Convidamos então para a permanente reflexão sobre o que se tem nomeado como “campo psi” em que tanto a Psicologia quanto o fazer psicanalítico se inscrevem.

http://www.cinematerapia.psc.br

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May 15, 2009 - Posted by | Psicologia

1 Comment »

  1. Olá passei aqui de novo para avisar que o blog de psicologia antigo saiu do ar devido aos muitos acessos simultaneos, entao, estou aqui pra te avisar do novo blog: ==> http://psicologiaparatodos.orgfree.com/blogpsicologia

    não esqueça de visitar! Pode esquecer o outro endereço!

    Abraços!!!!!!!!

    biel

    Comment by bields84 | August 22, 2010 | Reply


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