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Orkut: Sombra, Persona & Representações Sociais – Por Fábio Fischer de Andrade

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A internet hoje é algo trivial em nossas vidas. Através dela nos comunicamos; pagamos contas; fazemos compras; publicamos informações, notícias, fotos, vídeos, etc. O leque de possibilidades aumenta na velocidade de um click no mouse. Dentre os inúmeros recursos que a internet dispõe estão as comunidades virtuais. São, em síntese, sites onde as pessoas têm a oportunidade de trocar informações com outras que possam ter interesses em comum. No Brasil, o site de relacionamentos Orkut é o exemplo mais conhecido de comunidade virtual. Desde que foi ao ar pela primeira vez, em 2004, o site vem moldando de maneira inovadora o comportamento do “internauta” brasileiro. Em 2003, antes do seu lançamento, tudo o que a internet tinha a oferecer como ferramentas eram as salas de bate-papo, os fóruns de discussão, os e-mail´s, os sites, os diários virtuais (também conhecidos como blogs). O Orkut aparece então como uma alternativa, fornecendo uma possibilidade de interação a qualquer indivíduo que tivesse acesso à internet.

Uma das características marcantes do Orkut é o fato de o site privilegiar a interação entre seus usuários. Essa interação acontece quando o usuário começa a utilizar as ferramentas do site para criar o seu perfil pessoal e assim expor este perfil para que qualquer pessoa possa ver. O perfil tanto pode ser falso (tradução literal do termo em inglês fake, como é mais conhecido) ou ser fiel à identidade na vida real. O site disponibiliza toda uma gama de recursos disponíveis aos seus usuários, de maneira que os mesmos criem sua identidade virtual e elaborem também representações sociais de acordo com seus interesses e objetivos na rede. Esta identidade virtual, o perfil, corresponde à sua representação social dentro do site e nas demais comunidades virtuais de que esteja participando.

sombra2Sob a ótica da Psicologia Analítica, este perfil criado pode ser analisado, mais especificamente utilizando-se os conceitos de sombra e persona. Calluf (1969) diz que a persona é o que mostramos por fora. Ela corresponde à identidade e desempenho de papéis socialmente atribuídos ao indivíduo. Já a sombra é o arquétipo associado às virtudes e defeitos de caráter ocultos para o próprio indivíduo.

Mas afinal, o que são representações sociais? Representações sociais são fatos significativos que estão intimamente ligados a cada sujeito, cada indivíduo. São elas que permitem que as pessoas estabeleçam comunicação e encontrem sua identidade, desenvolvendo assim o sentimento de pertencimento a um grupo sócio-cultural. Desta forma, o perfil do “orkuteiro” poder ser considerado uma forma de se representar socialmente num meio, numa comunidade (ainda que virtual). As representações sociais constituem uma forma de mediação entre a identidade do sujeito e o ambiente no qual ele se encontra inserido.

É preciso, no entanto, prestar atenção em certos detalhes. Nos sites de relacionamento, como o Orkut, existe a possibilidade do sujeito se “re-inventar”, criando uma representação social paralela de sua vida, que pode ser a mais idealizada possível, mas também ser distante da frustração e do marasmo da vida real. Por perfil idealizado, aponto como sendo a representação virtual que o sujeito faz de si mesmo, exibindo uma aparência que seja atraente aos olhos dos visitantes e que forneça conteúdo para saciar a curiosidade de outros usuários da rede. O usuário pode agregar-se a comunidades de livros que nunca leu, lugares que nunca visitou ou comportamentos que gostaria de ter. É preciso “vender” a imagem, pois as pessoas irão “comprar” apenas os mais cultos, os mais populares, os mais “viajados”, os mais bonitos.

sombra3Quando o usuário cria um perfil idealizado, sem defeitos ou pontos negativos, permite que o ego se identifique mais com esta persona “virtual”, já que não existe conteúdo para ser segregado e enviado à sombra. Desta forma, o perfil que o sujeito cria no Orkut pode se afastar parcial ou até completamente de sua real personalidade na vida real, criando então uma representação incompleta, composta apenas por aquilo que o indivíduo quer mostrar ao mundo e não ao que ele é de verdade.

Vivemos hoje de forma exagerada este culto a sociabilidade, uma celebração do “sujeito popular”. O perfil mais “badalado” acaba por romper com o padrão mais individualista e isolacionista que a modernidade impôs, retomando a exposição como forma de suprir uma necessidade de se comunicar e se relacionar.

Fábio Fischer de Andrade – fabio_psi@hotmail.com
CRP 06/93375

REFERÊNCIAS:

ANDRADE, Fabio Fischer. Orkut e Representações Sociais: Uma análise sob a ótica junguiana. Fábio Fischer de Andrade – Santos: [s.n], 2008. 92p. (Monografia) Curso de Psicologia. Universidade Católica de Santos)

ASSIS, Ana Borges; ROJO, Marina Luiza; DIAS, Cláudia Latorre Fortes.
A ciberidentidade no Orkut: Aspectos contextuais. 2006. Disponível em http://www.cibersociedad.net/congres2006/gts/comunicacio.php?id=330&llengua=es

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos.1º Ed. Rio de Janeiro: Zahar. 2004. 190p.

CALLUF, Emir. Sonhos, Complexos e Personalidade. 1a. ed. São Paulo : Mestre Jou. 1969. 302p.

DAL BELLO, Cíntia. Espectros Virtuais: A construção de corpos-sígnicos em comunidades virtuais de relacionamento. Disponível em: .

JUNG, Carl Gustav. Fundamentos de Psicologia Analítica – As conferências de Tavistock. 1º. ed. Petrópolis: Vozes. 1972. 239p.

MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social. 2ºed. Petrópolis: Vozes. 2004. 404p.

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June 25, 2009 Posted by | Psicologia | 3 Comments