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O que pode estar acontecendo no Twitterlândia Brasileira…

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

Temos focado nosso trabalho em Cinematerapia (cinematerapia.psc.br), mas não deixamos de manter o olhar clínico analítico nas questões que envolvem as relações resultantes da interação Psicologia e Informática, assunto que pesquisamos há alguns anos.

Escrevemos aqui em outras ocasiões sobre a “Tornar-se Produto” e em como isso exige um Ego resiliente. Falamos de Amy Winehouse e em como ela pode ser uma vítima da nossa mídia. Também tocamos no assunto Susan Boyle e Maísa e MJ , tão batido e cansativo dos ultimos dias. Falou-se muito da morte de um ícone do pop, mas muito também foi explorado em torno das suas questões de vida, pesadas questões, devemos dizer. Questões que serão “esquecidas” quando ele se tornar um “mito”.
Isso nada é, perto do que possivelmente pode estar acontecendo no twitter agora. Tão rápido e tão imediato, que muita coisa muda e acontece e não estamos processando essa informação muito bem. É como se tivessemos um pc 486 recebendo informações em Banda Larga.

Lemos em algum lugar , que o Twitter era o “núcleo da internet”. Tudo acontece e passa por alí primeiro e não tem como não grudar os olhos e saber noticias, fofocas, interação, amigos, filmes, besteiras, piadas, etc…tudo em pequenas frases. É rápido, divertido e você monta da maneira que quiser o seu. Serve para o imediatismo dessa vida moderna corrida. Você escolhe sobre o que quer ler e quando quer ler. Se gosta de culinária, pode ler sobre o tema o dia inteiro. Se detesta futebol, pode ficar sem saber as notícias desta área. É a interação seletiva entre usuários e conteúdos digitais.

Para continuarmos, temos que referenciar um vídeo muito bom que foi veiculado no portal Globo.com

Vídeo

Pois é….é tão rapido que o vídeo JA SAIU DO AR…em menos de 24h. Ficou uns bons dias online, mas não circulou muito. Assim que acharmos de novo, no youtube, postamos aqui…

Daudt fala de uma diferenciação entre pessoa e artista. E este seria um dos riscos que estes correm, ao se colocarem a prova no Twitter. @Cardoso colocou em seu blog uma dessas preocupações, relativas a essa falta de barreiras. Quem acompanha e usa tem visto uma briga virtual de unhas e dentes, envolvendo celebridades, colunistas, apresentadores, diretores. Todos do mundo das celebridades correram para o twitter, e talvez não pensaram no impacto que isso poderá ter em suas carreiras. Muitos nunca sequer tinham ouvido falar das questões do chamado “ciberespaço” que tem merecido muitos estudos de vários pesquisadores aqui no Brasil e por aí afora no mundo.

Aston Kutcher, é um dos “garanhões” mencionados por Daudt em sua entrevista. Tem mais de 2 milhões de “seguidores” e ainda conseguiu casar com Demi Moore (ex-esposa de quem? – haja imaginário para idolatrar o rapaz). Essa disputa quase falocêntrica gerou frenesi entre os brasileiros e muito mal estar. Twitterlândia (pare se referenciar a parte brasileira) virou um campo de batalha. Quem é mais engraçado, quem tem mais seguidores, quem interage mais, quem tem mais isso ou aquilo. A competição tomou conta e o “Coliseu Virtual” foi instaurado. As novas entradas (celebridades) são jogadas aos leões (usuários). Alguns são atacados, mordidos, outros se defendem e contra-atacam. Um circo digno de um reality show (desses onde os participantes esquecem de tomar seus remédios ou tomam remédios controlados)

E o motivo disso acontecer? É que tudo está muito mais rápido, como um tornado. Ao mesmo tempo com interação não vista antes. Isto expõe o artista ou pessoas a mostrarem o que realmente são. E isso poderá agradar ou NÃO ao telespectador ou ao seu público alvo. Podem estar ajudando ou atrapalhando as próprias carreiras. Tudo isso nesse novo tempo que o mundo virtual trouxe, esse que se constitui como um tempo imediato, instantâneo. Somar isso ao fato do Brasil ser um país de acessos a Internet com índices impressionantes nos fará ver que estamos diante de um fenômeno merecedor de muita atenção, que querendo ou não, invade o chamado mundo off-line(atual).

Muito se tem falado da chamada de new mídia e talvez o Twitter venha exatamente sublinhar ainda mais esse fenômeno que cresce. Procurar o famoso “lugar ao sol” sempre foi o objetivo de muitos que pensam ter algum talento a ofertar ao mundo, alguns cobertos de razão, aparecem ou não, vai um pouco aí da capacidade de se mostrar e também de uma boa pitada de sorte, ou de algo que poderíamos chamar de estrela da sorte. O que há de diferente trazido por essa nova mídia? Talvez resida exatamente em dois principais aspectos(e muitos outros, é claro):

*a rapidez que alguém ou algo pode se tornar famoso;

*a rapidez que algo ou alguém pode cair da fama.

Até algumas semanas, o Twitter era uma diversão pura e eram coisas simples e cotidianas. Muitos a conheciam pouco e passaram a saber mais do seu trabalho alí, e ganhou seguidores fiéis. Alguns colunistas de jornais passaram a interagir mais com seu público, mesmo os mais criticados, quebrando barreiras e preconceitos. Alguns ex-reality show mostram que são mais do que uma simples imagem, e alguns artistas se mostraram tão próximos de seu público que talvez renasçam das cinzas, no estilo “phoenix”. Este é um dos pontos positivos que o Twitter traz para este “celebrity world”. Esse tão perto e tão longe que o mundo net/virtual vem nos ensinando e que nos provoca ainda “maravilhamento” e estranheza, em uma mistura que ainda não conseguimos processar muito bem.

Por outro lado, muitos artistas têm se mostrado chatos, repetitivos, cansativos e os comentários começam a surgir. Tem artista que só entra pra divulgar show, e acha que usuários não perceberam que estão sendo feitos de bobos. Tem gente que não escreve blog e tenta enganar que está twittando. Tem gente fazendo baderna, como se aquilo fosse o playground de uma escola de ensino médio. Quando o usuário se permite seguir e ler sobre algúem (sim, é ele quem se permite, o artista aqui está na forma passiva, mas narcísica), ele não está interessado em ler mensagens de SPAM ou escritas por outra pessoa. Ele quer interação com aquele que segue. Muitos ainda menosprezam a capacidade do chamado mundo net/virtual por sua capacidade de máscaras(fake), mas o que temos visto é que essa diferenciação cai, mesmo quando por detrás de personagens montados, a exposição permanente mais revela que oculta.

E não é somente para celebridades que existe o Twitter. Muitos CEOs de empresas internacionais já utilizam e se comunicam sim com usuários. A moda está pegando aqui no Brasil e começou pelas emissoras de TV. Diretores, redatores, produtores…todos online buscando informações e interesse em tempo real(atual). Enquanto o Ibope diz quantos assistem, o Twitter lhes diz “o que querem assistir”. Não foi à toa que Celso Portiolli ganhou o Domingo Legal. É claro que não foi por causa do Twitter, mas sim, pela sua história e trabalho na televisão. Entretanto, quando foi preciso – em tempo muito rápido, quem detinha o poder de decisão (Danibay) ficou sabendo do desejo do público em tê-lo como apresentador. Ela deveria já tê-lo como “escolhido”, mas a pre-decisão foi reforçada pelos seus seguidores.

Cada um mostra aquilo que é e que tem de melhor – nesse momento, e caberá ao público realmente perceber se vale a pena continuar assistindo ou dando importância para uma ou outra celebridade. Assim como a dança das cadeiras na tv que tivemos recentemente, teremos dança das cadeiras das celebridades, onde algumas ganharão maior importância e outras cairão, pois quebou-se parte da fantasia do ídolo.
Daudt deixou claro que esse imáginário popular sobre a celebridade pode passear entre “amor e ódio”, no melhor sentido Kleiniano possível, e essa fantasia que se tem sobre um ídolo pode ser quebrada por uma simples exposição desmedida. Talvez o Twitter nos mostre quem realmente as pessoas são, e sejam admiradas pelo seu talento, pelas suas habilidades, e não pelas embalagens e roupagens que ganham pela mídia.

Outra pergunta que não se cala diz respeito ao que se refere àquilo que chamaremos de verdadeiros talentos, esses que se evidenciam acima de uma multidão em busca da fama, isso poderá acontecer em qualquer setor das manifestações da arte. Ainda sobra espaço para o aparecimento e manutenção do talento em nossos dias? Terá a arte também sucumbido a desafetação(retirada da emoção que se liga a um evento) e ao fast-food que permeia todos os vínculos na atualidade? Trataremos as manifestações do coletivo que conhecemos como arte como algo também descartável? Temos a esperança que não, e ainda acreditamos que esses talentos ainda continuarão a aparecer e a se manter pela beleza que trazem junto a sua arte. Talvez, e vamos deixar isso aqui realmente como uma grande indagação, mas talvez possamos pensar que com o crescimento das mídias o espaço para o efêmero tenha se alargado de forma gigantesca e que isso alimente essa nossa sensação de rapidez da fama, frágil fama quando não assentada em um genuíno dom.

Pensamos que talvez a grande questão que nos assombra seja a de transformarmos esses talentos em caricaturas desse descartável, seguindo a tendência dominante. Negar o talento incomensurável de Amy Winehouse , por exemplo, nos parece impossível. Mas sublinhamos através da mídia, não esse talento, mas sim sua tumultuada vida, que sabemos que já foi precedida por outros inúmeros exemplos parecidos, como o próprio Michael Jackson, Elvis Presley, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Ray Charles e tantos outros. Mas talvez, a mídia de suas épocas, tivesse um poder menor, uma capacidade bem mais reduzida de explorar suas idiossincrasias.

O Twitteiro talvez ainda não tenha se dado conta do poder que tem nas mãos, podemos pensar nas “fofoqueiras de plantão” , aquelas apelidadas de cotovelos roxos, das pacatas cidades do interior, que eram capazes de arruinar vidas ou elevá-las com apenas uma frase, repetida essa no telefone sem fio que se constituí a comunicação humana. Imagine essas “boas” velhotas com o poder do Twitter! Isso nos colocará frente a outra importante questão: alguns pesquisadores acreditam que nessa era da conectividade jogar informações sobre nós mesmos seria uma forma de assumir o controle sobre elas, mas será que isso é algo de fato? A informação através da comunicação característica da “rede” será capturada como? Pensamos que tentar responder a essa questão poderá ser algo que faça a diferença.
O Twitter está aí nos trazendo mais algumas ricas indagações na atualidade, pensar e pesquisar sobre sua inserção em nossos vínculos atuais se torna algo bastante complexo e mais do que necessário. Nessa movimentação que caracteriza o homem contemporâneo em sua necessidade de quebra quanto ao anonimato, em busca constante de uma vitrine que dure um tanto mais que os meros 15 minutos de fama vaticinados por Andy Warhol.

Fato é que muitos de nós já entendemos que a Internet veio para ficar e que se constitui também em ambiente de trabalho, de divulgação das mais variadas, aquilo que começou arma militar e passou para entretenimento e lazer, começa a ganhar contornos de uma mídia poderosa, quem está por esse ciberespaço há algum tempo já se deu conta disso. Como utilizaremos isso é algo que ainda vem se construindo e que nos remeterá para a sempre constante questão que se apresenta frente a atividade humana, a construção de uma ética que não transforme tão poderosa ferramenta em um algo nefasto ou destrutivo, velha questão que atravessa a humanidade desde que o homem tocou outro ser semelhante a ele, e desde que pelo interdito constituiu-se como ser da cultura.

Só nos resta torcer para que não vire uma terra sem lei, dominada pela pulsão perversa, como aconteceu com o Orkut, já relatado há alguns anos.

July 14, 2009 Posted by | Cinema-TV, Psicologia | 3 Comments